terça-feira, 3 de março de 2026

TSE aumenta responsabilidade de candidatos e provedores sobre uso de IA nas eleições

Foto Luiz Roberto/TSE

Via site JOTA por Flávia Maia, Lucas Mendes 

De acordo com a resolução aprovada, conteúdos produzidos por IA devem ser identificados e informar qual a tecnologia foi utilizada

 O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou nesta segunda-feira (2/3), por unanimidade de votos, uma resolução sobre a propaganda eleitoral que endurece a responsabilidade dos candidatos e dos provedores em relação ao uso de inteligência artificial (IA) para as eleições de 2026. O descumprimento das regras pode gerar derrubada de conteúdo e até mesmo multas. As empresas também deverão elaborar plano de conformidade destinado à prevenção e à mitigação de riscos à integridade do processo eleitoral. Na esteira de aumentar a responsabilidade do uso de IA, a Justiça Eleitoral possibilitou a inversão do ônus da prova em caso de dificuldade técnica da comprovação da manipulação digital. Ou seja, se for excessivamente oneroso ao autor demonstrar a irregularidade do conteúdo, ele pode pedir a quem produziu o conteúdo essa informação. Pela norma, ainda haverá responsabilidade solidária de provedores de aplicação de internet em caso de não promoção da indisponibilização imediata de conteúdos e contas durante o período eleitoral nos casos de divulgação ou compartilhamento de conteúdo sintético que não esteja rotulado ou que viole demais vedações legais e regulamentares.

Ainda de acordo com a resolução aprovada, conteúdos produzidos por IA devem ser identificados e informar qual a tecnologia foi utilizada. Também ficam proibidas publicações com uso da tecnologia 72 horas antes do pleito e 24 horas após.

O TSE também proibiu o ranqueamento de candidatos, campanhas, partidos políticos, federações ou coligações; e qualquer forma de favorecimento político eleitoral, inclusive por meio de respostas automatizadas e a criação ou promoção de alterações em fotografia ou vídeo que contenha cena de sexo, nudez ou pornografia envolvendo candidata ou candidato.

Quanto à remoção de conteúdo, a resolução aprovada traz mais possibilidades do que a minuta apresentada pelo vice-presidente do TSE, Nunes Marques. Devem ser derrubados de forma imediata perfis falsos, robôs e aqueles com reiteradas práticas de crime eleitoral e publicação de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que possam atingir a integridade do processo eleitoral, desde que tenham sido reconhecidos pela Justiça Eleitoral.

Pela resolução, as regras não se aplicam para mensagens privadas em grupos restritos, como por WhatsApp. Assim, em um primeiro momento, listas de transmissão podem ser atingidas.

Foi retirada a possibilidade de impulsionamento pré-campanha, um item considerado polêmico. Da forma como estava redigida a minuta proposta por Nunes Marques, não caracterizava propaganda eleitoral antecipada o impulsionamento da crítica ao desempenho dos governos em exercício.

Na visão de atores como partidos políticos, governo e Procuradoria-Geral Eleitoral, o impulsionamento desse tipo na pré-campanha poderia gerar desinformação e difamação, como as verificadas, por exemplo, em torno do monitoramento de movimentações financeiras via PIX e de ataques institucionais ao Banco Central.

Pela resolução, é livre manifestação do pensamento do eleitor real e só é passível de limitação quando ofender a honra ou a imagem de candidatos, partidos, federações ou coligações, ou quando divulgar fatos inverídicos. Também fica vedada a propaganda eleitoral ou o assédio eleitoral em ambiente de trabalho público ou privado. Integridade eleitoral

Em sua fala durante a sessão, o ministro Nunes Marques, que presidirá o TSE a partir de junho, disse que as alterações promovidas não são um conjunto de medidas "voltadas a ameaçar e punir atores do processo eleitoral e arrefecer a disputa pelo voto". Elas buscam, conforme afirmou, permitir o funcionamento de debate eleitoral “no mundo real, dando ênfase à liberdade de comunicação daqueles que vão disputar eleições e garantindo livre manifestação do eleitorado".

"É importante que a Justiça Eleitoral, em atividade regulamentar ou função jurisdicional, renove seu compromisso com a liberdade dos atos de propaganda praticados no mundo real, portanto imunes ao algoritmo e manipulação comuns no universo virtual", declarou.

Quanto ao mundo digital, Nunes Marques disse que a resolução traz "firmes balizas" para a propaganda eleitoral virtual.

Outros pontos

Na resolução que trata dos registros de candidatos, o TSE atualizou a regra conforme decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de outubro de 2025 sobre situações em que o vice assume o cargo do titular por breve período.

Conforme determinado, o exercício da chefia do poder Executivo nos 6 meses anteriores ao pleito, devido a decisão judicial não definitiva, não configura mandato para fins de eleição.

Já a resolução de ilícitos eleitorais passa a prever a proibição de uso de conteúdo gerado ou modificado por IA que esteja em violação às normas eleitorais.

Essa resolução também inclui os indígenas na proteção sobre a destinação dos recursos públicos de campanha. Conforme o texto, a gravidade do desvio de finalidade do montante destinados a candidaturas de mulheres, pessoas negras e indígenas independe do total desviado. Para configurar o ilícito, basta a demonstração de que os valores não foram empregados em benefício dessas candidaturas.

Uma novidade a partir desta eleição é a resolução que consolida as normas para o cidadão. O documento reúne dispositivos dispersos em diversas legislações e regramentos, e traz pontos como que tipo de propaganda é lícita de ser feita pelas pessoas, quanto se pode investir em candidaturas, e em quais situações é possível acionar a Justiça informando algum fato que leve a rejeição de registro de candidatura

Câmara de Ananindeua aprova proposta do Executivo que reajusta piso dos professores do município acima do índice federal

Fotos Cid Alves 

Na sessão desta terça-feira (3), presidida pelo vereador Vanderray, a Câmara Municipal aprovou a proposta encaminhada pelo Executivo, que reajusta o piso salarial dos professores de Ananindeua acima do índice definido pelo governo federal.

A medida, enviada pela gestão do prefeito Dr. Daniel, garante a atualização do piso para os profissionais da educação do município.

Logo após a votação, os vereadores se reuniram com a direção do Sintepp para dialogar sobre o reajuste e outros pontos de interesse da categoria.

2.º Trade Turístico de Ananindeua reforça valorização de empresários, gestores e profissionais do setor

 

Foto RICARDO AMANAJÁS

Via Ananews - O Teatro Municipal de Ananindeua será palco de um evento que tem como objetivo promover o turismo local e qualificar os profissionais da área

O evento será no Teatro Municipal de Ananindeua, localizado no Parque Vila Maguary.

Amanhã será o grande dia para quem busca fortalecer e expandir o próprio negócio. O Teatro Municipal, localizado no Parque Vila Maguary, recebe nesta quarta-feira (4), das 9h ao meio-dia, a 2ª Reunião do Trade Turístico de Ananindeua.

Para Pedrinho Salgado, titular da Secretaria Municipal de Lazer e Turismo (SELTUR), o momento representa a consolidação de uma nova fase para o turismo no município.

"Estamos trabalhando para que Ananindeua fortaleça cada vez mais o setor turístico. Como não falar dos nossos cartões-postais? Hoje contamos com espaços lindos, como a Orla de Ananindeua, o Parque Vila Maguary, que será o local deste grande evento, o Parque das Águas, o Parque do 8 e o belíssimo Parque Zona Sul, além dos balneários e das nove ilhas que formam o segundo maior município do Pará".

Ainda segundo o secretário de turismo é indiscutível que, nos últimos cinco anos, a cidade deu um salto na modernização e na valorização de espaços. " E isso é só o começo. Novas ações e projetos estão por vir para fortalecer ainda mais essa área tão importante que é o turismo local".

Qualificação e novos desafios.

A programação promovida pela Prefeitura de Ananindeua, contará com um 'talk show' com Maíra Freitas, gestora de alta performance do Sebrae, que abordará os desafios e as oportunidades para os profissionais do setor.

Em um mercado que não para de crescer, especialmente o turismo amazônico, ficar competitivo é fundamental. Ainda mais diante do cenário que se projetou com a COP 30, o setor precisa investir em qualificação, inovação e melhoria dos serviços oferecidos aos turistas que visitam e desejam conhecer Ananindeua.

"A todo momento é necessário buscar qualificação, inovação e excelência nos serviços que oferecemos. O turismo vem crescendo em Ananindeua e, com isso, surgem novos negócios que geram renda e emprego. Na atual conjuntura, é fundamental envolver a sociedade civil, empresários e profissionais da área para debater melhorias e fortalecer o setor, atraindo cada vez mais visitantes para uma cidade tão importante para o Pará e para a Amazônia", reforçou a gestora.

Desenvolvimento e geração de emprego.

O fortalecimento do turismo em Ananindeua acompanha o crescimento do município, impulsionando o desenvolvimento econômico, a geração de renda e o avanço de áreas como transporte, hospedagem, cultura e preservação ambiental.

"O Trade Turístico é uma iniciativa que beneficia todos os envolvidos no setor, além de levar à sociedade informações relevantes sobre uma área estratégica não apenas para a nossa região, mas para todo o país. A previsão é que o turismo gere quase 8 milhões de empregos no Brasil este ano", ressaltou Adrielson Furtado, diretor da SELTUR.

segunda-feira, 2 de março de 2026

O presidente da Câmara de Ananindeua denuncia tentativa de golpe por meio de um número de celular


O vereador Vanderray postou em suas redes sociais que está sendo vítima de tentativa de golpe por meio de um número de celular  (veia no card).

O parlamentar solicita que as pessoas não respondam às mensagens enviadas por esse número, não realizem qualquer tipo de pagamento e denunciem o caso à plataforma e às autoridades competentes.

"Vem te cuidar": Secretaria de Saúde de Ananindeua promove mês inteiro de mobilização pela saúde da mulher

 


Via Ananews 

Unidades Básicas de Saúde ofertam PCCU, vacinação contra HPV, testes rápidos e rodas de conversa durante todo o mês de março

Programação especial nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) .

A Prefeitura de Ananindeua, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SESAU), em parceria com a Coordenadoria de Saúde da Mulher, promoverá durante todo o mês de março uma programação especial nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) em referência ao "Março Lilás", campanha dedicada à conscientização e prevenção do câncer de colo do útero.

O câncer de colo do útero é a 4ª maior causa de morte por câncer entre mulheres no Brasil. A campanha tem como principal objetivo orientar e alertar a população sobre a importância do diagnóstico precoce, reforçando que a prevenção salva vidas.

Com o tema "Vem te cuidar", a programação busca fortalecer o cuidado preventivo por meio da realização regular do exame PCCU (preventivo), além de incentivar a vacinação contra o HPV para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Durante todo o mês, as UBS também irão oferecer orientações sobre sinais e sintomas da doença, promovendo informação e acesso aos serviços de saúde.

Serviços ofertados nas UBS:

Rodas de conversa educativas;

Dinâmicas e orientações sobre prevenção;

Aferição de pressão arterial;

Consultas médicas e odontológicas;

Coleta de PCCU;

Vacinação contra HPV;

Testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C.

Programação Especial

De 02 a 31 de março de 2026

Rodas de conversa, dinâmicas e atendimentos voltados ao público nas Unidades Básicas de Saúde.

Programação aos fins de semana

Coletas de PCCU realizadas pelo Programa Saúde Todo Dia.

09/03 - Ação Casa da Mulher Brasileira

11/03 - Ação SEMMU (UBS Floresta Park)

27 de março de 2026 - Programação Especial SESAU

Horário: 09h às 12h

Local: Salão de Espera da SESAU

Tema:

"Roda de conversa sobre Câncer de Colo Uterino, prevenção, diagnóstico precoce e sinais e sintomas de alerta no cuidado ginecológico"

Público-alvo:

Servidores (de ambos os sexos) e público presente na SESAU.

A ação tem como objetivo promover o autocuidado e incentivar que os participantes também sejam multiplicadores de informação, cuidando de suas esposas, filhas e demais mulheres da família, além de disseminar conhecimento na comunidade.

Serviços ofertados no dia:

Consulta clínica médica

Vacinação

Testes rápidos para HIV, hepatites e sífilis

A campanha "Março Lilás" reforça que a prevenção é o melhor caminho. Realizar o exame preventivo regularmente e manter a vacinação em dia são atitudes simples que fazem toda a diferença.

A comunidade quilombola de Ananindeua protesta contra a qualidade das obras da Rodovia Liberdade do governo do Pará

Clique e veja o vídeo 

A via está sendo construída no município e deve cortar a área ancestral do Quilombo do Abacatal, gerando preocupação entre os moradores.

domingo, 1 de março de 2026

"Quando ele [estado do Pará] diz que é o maior defensor do meio ambiente, isso é mentira. Porque, se ele, de fato, defendesse o meio ambiente, estaria defendendo a vida" diz Cacica Miriam Tembé


Por Jullie Pereira - Cenário complexo, falta de pessoal e orçamento instável fragilizam o programa de proteção a defensores na Amazônia -  No Pará, a cacica Miriam Tembé (foto), presidente da Associação Indígena Tembé do Vale do Acará, um território indígena ainda não demarcado, solicitou escolta em 2025, mas recebeu resposta negativa. Ela fez o pedido ao programa, que acionou a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup), responsável pelo quadro policial no estado. A Polícia Militar recusou o atendimento sob a alegação de que a responsabilidade seria da Polícia Federal, já que se trata de um território indígena, cuja competência é do governo federal.   “Quando ele [estado do Pará] diz que é o maior defensor do meio ambiente, isso é mentira. Porque, se ele, de fato, defendesse o meio ambiente, estaria defendendo a vida desses defensores também. Porque estamos diretamente defendendo o meio ambiente e defendendo com os nossos corpos. Nós somos esses guardiões e não temos proteção nenhuma do Estado; a proteção é só de Tupã e dos nossos ancestrais”, diz a cacica.

Em média, as equipes do programa contam com apenas sete a nove profissionais para lidar, em vários casos, com dezenas de defensores atendidos, segundo o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH), grupo de 45 organizações que atuam na proteção de pessoas e grupos ameaçados.

O Comitê apresenta uma análise orçamentária dos 20 anos do programa no país. Entre 2004 e 2024, o pagamento efetivo — que inclui os valores empenhados para o programa somados ao que foi executado no exercício corrente — passou de R$ 824 mil em 2005 (não há dados disponíveis para 2004) para R$ 13,3 milhões em 2024.

Sandra Carvalho faz parte do CBDDH por meio da Justiça Global, uma das organizações integrantes, e é coordenadora do programa de Proteção de Defensores(as) de Direitos Humanos e da Democracia dentro da instituição. Ela acompanha o PPDDH desde a sua criação e explica que os desafios “hoje em dia estão menos na ordem de orçamento propriamente dito, mas na forma como ele [programa] está implementado no Brasil”.

O Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos deveria garantir a segurança física de pessoas ameaçadas na região que concentra quase metade das mortes por conflitos fundiários no Brasil. Mas, na prática, em média, as equipes contam com apenas sete a nove servidores para atender casos complexos que podem envolver dezenas de pessoas sob risco. 

O Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), criado em 2004 para garantir a segurança física de pessoas ameaçadas, enfrenta um cenário de fragilidade no país e, especialmente, na Amazônia Legal. Cerca de metade dos conflitos por terra está concentrada na região, mas a distribuição do orçamento e as equipes do programa não acompanham a complexidade crescente das ameaças, segundo novo relatório da Oxfam Brasil.

Coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o programa atua em formato de convênio, com governos estaduais e organizações da sociedade civil, reunindo equipes formadas por servidores públicos e profissionais de entidades privadas parceiras. As demandas são variadas e graves: proteger pessoas sob ameaça de morte, removê-las imediatamente de suas casas e, em alguns casos, garantir escolta policial. A verba do programa também cobre equipamentos de segurança, como câmeras, drones e GPS.

Segundo Carvalho, “o orçamento poderia ser muito maior”, mas ela pondera explicando que o formato de convênio entre a União, estados e organizações executoras fragiliza o programa, já que, muitas vezes, há descontinuidade do projeto.

“O custo para manter as estruturas é muito alto. Grande parte desses recursos vai para a manutenção das equipes técnicas e para as viagens aos territórios. Existe uma desigualdade para que as medidas protetivas cheguem de forma adequada na ponta, garantindo que defensoras e defensores sejam efetivamente incluídos”, afirma.

Além disso, o orçamento varia de acordo com a gestão federal. O programa foi implementado por meio de decreto, mas Carvalho defende que ele seja transformado em lei, justamente para reduzir o risco de sucateamento conforme muda o governo.

No último ano do governo de Jair Bolsonaro, por exemplo, o único repasse ao PPDDH na Amazônia Legal foi de R$ 2,7 milhões, destinados ao Pará, referente a um convênio firmado em 2017 e encerrado em 2022. Em 2019, o valor pago ao programa em todo o país foi de R$ 1 milhão.

Entre os avanços mais recentes, a coordenadora da Justiça Global destaca a criação, em 2025, do Plano Nacional de Proteção a Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, que deve orientar a execução do programa daqui em diante e se tornou um “instrumento mais robusto da política de proteção de defensores e defensoras dos direitos”.

Ela avalia, no entanto, que o que está previsto no plano — fortalecer e articular ações de proteção, individuais, coletivas e territoriais, por meio da cooperação entre entes federativos e da participação da sociedade civil — ainda não se concretizou: “a gente avança a passos muito curtos”.

Questionado pela InfoAmazonia sobre o padrão dos repasses, o MDHC afirmou que “os percentuais e regras para contrapartida de estados são definidos anualmente pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) da União, baseando-se na capacidade financeira do ente [federativo] e no tipo de programa”. Segundo a LDO, a definição dos valores repassados considera alguns indicadores, como a receita corrente líquida e o resultado fiscal de cada estado. Assim, cada unidade da federação recebe recursos proporcionais ao seu desempenho nesses indicadores.

A complexidade amazônica

O novo relatório da Oxfam Brasil, Amazônia em disputa: Conflitos fundiários e a situação dos defensores dos territórios, divulgado na segunda-feira (23), mostra que a Amazônia concentrou 1.034 conflitos no campo em 2023. Isso representa 47% de tudo o que foi registrado no país no período, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

A organização também analisou dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e apontou que, em 2024, a taxa de mortes violentas intencionais (MVI) nos municípios amazônicos chegou a 32,3 por 100 mil habitantes, número 41,5% maior que a média nacional, de 22,8 por 100 mil.

Se já existe um déficit orçamentário do programa no país, o problema se agrava diante da complexidade da Amazônia: alguns territórios são distantes, ficam longe dos centros urbanos, os deslocamentos podem levar muitas horas e as passagens têm custos elevados. A atuação de equipes técnicas especializadas, que precisam acompanhar continuamente cada caso, é cara, o que dificulta ainda mais o processo.

Ao todo, segundo dados do governo federal coletados pela InfoAmazonia em fevereiro de 2026, 671 pessoas estão em análise ou já sob proteção do programa na Amazônia Legal — no Brasil, são 1.485. O Maranhão é o estado com mais defensores já protegidos (131), enquanto outros nove ainda aguardam análise para entrar no PPDDH. Já o Pará concentra o maior número de pedidos em análise (92) e tem outros 84 já incluídos no programa.

O relatório da Oxfam aponta que os defensores acompanhados pelo programa enfrentam contextos de vulnerabilidade semelhantes: disputas agrárias, processos de regularização fundiária, defesa ambiental, proteção dos direitos de povos tradicionais, insegurança de operadores do sistema de justiça, enfrentamento à corrupção e promoção do direito à memória e à verdade.

O motor central desses conflitos é a disputa pela terra. No Pará, há 61 terras indígenas — 10 ainda não homologadas, de acordo com dados da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) — e até mesmo as que já foram homologadas sofrem invasões de garimpeiros, grileiros e madeireiros.

“Existe este choque de visões, esta divisão de mundos que não combinam. De um lado, você tem as populações tradicionais, indígenas, ribeirinhas, quilombolas e ativistas, com os seus saberes. De outro, a perspectiva de setores econômicos, do agro, do garimpo e do próprio Estado, com seus grandes projetos de infraestrutura, que operam nesse ritmo desenfreado, invadindo esses territórios, tudo em nome de um suposto desenvolvimento. Para os povos tradicionais daqui, é uma constante ameaça”, explica um antropólogo à InfoAmazonia, que preferiu não se identificar.

Outra fragilidade do programa é a dependência das forças policiais para fazer as escoltas, transferências ou agir diretamente nos conflitos. Em alguns casos, mesmo pessoas que precisam da proteção preferem não receber o atendimento policial por falta de confiança, como aponta o documento da Oxfam: “contraditoriamente, [as forças de segurança] são apontadas como fonte de ameaça em muitos dos casos acompanhados pelo programa”.

“A ocorrência de participação de policiais em milícias na região é conhecida e, embora não generalizada, aumenta a desconfiança da população, considerando a violência que propagam. Muitos conflitos estão diretamente relacionados ao uso e direito à terra. Além disso, o próprio vazio da política de segurança pública (que prioriza espaços urbanos) abre margem à atuação do crime organizado”, afirma Julianne Nestlehner, gerente de programas da Oxfam Brasil.

Para o advogado Alexandre Arapiun, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), uma solução é a criação de uma delegacia especializada para defensores dos direitos humanos e ambientais. “É necessário ter uma formação aos policiais que fazem as rondas [nas casas e nos territórios de defensores] para que eles entendam essa dinâmica de proteção de defensores de direitos humanos. O que mais prejudica essa resposta rápida são esses limites institucionais que, obviamente, não são de responsabilidade dos conselheiros, mas da necessidade do país de olhar com mais importância para esse programa”, afirma.

Gerência dividida

A divisão da gerência do programa entre organizações da sociedade civil e governos federal e estadual traz prós e contras.

Para ingressar no programa, cada caso é analisado pelo Conselho Deliberativo (Condel), formado por sete órgãos federais, entre eles o MDHC, o Ministério da Igualdade Racial (MIR), o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU). Também participam sete representantes de organizações da sociedade civil.

Na Amazônia Legal, defensores do Pará, Maranhão e Mato Grosso são atendidos por organizações não governamentais conveniadas às secretarias estaduais de direitos humanos. No Pará, por exemplo, pelo Instituto Universidade Popular (UNIPOP), em parceria com a Secretaria de Igualdade Racial e Direitos Humanos (SEIRDH).

Rondônia, Roraima, Acre, Amapá e Tocantins não têm estrutura própria; nesses estados, o atendimento é prestado por uma Equipe Técnica Federal formada pelo MDHC e pelo Centro Popular de Formação da Juventude, sediado em Brasília. Já o Amazonas tem um braço da Equipe Técnica Federal, instalado no próprio estado.

Artur Romeu, da Repórteres Sem Fronteiras, que integra o Conselho Deliberativo do PPDDH, afirma que o modelo de gestão dividido pode facilitar a construção de relações de confiança com pessoas ameaçadas, especialmente porque, em muitos casos, as próprias ameaças envolvem agentes públicos.

“No entanto, também cria um problema estrutural: transfere para organizações da sociedade civil a operacionalização de políticas públicas extremamente sensíveis e complexas, que envolvem articulação com forças de segurança e outras instâncias estatais. É um formato relativamente singular quando comparado a outros mecanismos de proteção existentes na América Latina”, pondera.

A Oxfam Brasil avalia que a dependência de parcerias formais com autoridades locais e do apoio de organizações da sociedade civil cria um cenário de instabilidade operacional, resultando em respostas desiguais e, muitas vezes, insuficientes. Julianne Nestlehner, gerente de programas da organização, defende o fortalecimento das relações entre o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e os governos estaduais.

“Como são os estados os responsáveis pela implementação do PPDDH, é importante que tais órgãos tenham capacidades técnicas, humanas e orçamentárias para gerir projetos diretos ou em parceria com as organizações da sociedade civil. Isso inclui a criação de sistemas de dados robustos, que deem conta de demonstrar e mapear as políticas e os desafios locais”, afirma.

Por outro lado, a presença da sociedade civil inclui mais um ator na proteção das informações, com menor variação e interferência política. “A proteção é uma política muito variável. Então, vamos dizer que hoje o governo tem um direcionamento mais voltado aos direitos humanos. Quem detém todos os dados desses defensores são as ONGs. Mas imagine se o governo decidisse monitorar e controlar esses comunicadores de direitos humanos, como fez o governo Bolsonaro via Abin [Agência Brasileira de Inteligência]?”, disse uma advogada que acompanha casos de indígenas que estão no PPDDH e preferiu não se identificar. 

Por atuar na Repórteres Sem Fronteiras, Artur Romeu tem olhar específico para jornalistas e comunicadores ameaçados. Ele lembra do assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira, em 2022, um marco que “abriu uma janela de oportunidade para discutir o aperfeiçoamento dessas políticas na Amazônia”. Ele explica que, a partir das mesas de trabalho entre governo federal, Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e sociedade civil foi elaborado um plano protetivo específico.

“No entanto, mesmo nesse processo, os avanços concretos ainda são limitados. A sensação de insegurança permanece constante, gerando autocensura e medo entre aqueles que cobrem temas sensíveis na Amazônia”, afirma Romeu.

“Quando olhamos especificamente para jornalistas e comunicadores, os desafios se ampliam. Há um desconhecimento profundo do PPDDH entre esses profissionais e poucas ações sistemáticas do programa voltadas diretamente a esse público. Além disso, não há protocolos de análise de risco suficientemente adaptados às especificidades do trabalho jornalístico, nem medidas diferenciadas que levem em conta as dinâmicas próprias da atividade de imprensa em áreas de conflito socioambiental”, encerra.

Imagem de abertura: Representantes indígenas levam a pauta da defesa do território ao acampamento da COP30, em Belém, em novembro de 2025. Foto: Luis Ushirobira/InfoAmazonia

Esta reportagem foi produzida com o apoio da Oxfam Brasil.