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| Marcão Fonteles |
A resposta não pode ser reduzida a um único fator. O sentimento antipetista, a força de setores políticos e econômicos conservadores, a influência de grandes grupos de comunicação e o poder das plataformas digitais compõem parte importante desse cenário. Há, entretanto, outros elementos que precisam ser considerados, como a influência do neopentecostalismo na formação da opinião pública e na mobilização eleitoral.
Também merece investigação a atuação de setores do Judiciário e o papel de Kassio Nunes como presidente do TSE advogando em favor de Bolsonaro, especialmente diante das controvérsias envolvendo a condução do processo eleitoral e as decisões do Tribunal Superior Eleitoral. Os favorecimentos e desequilíbrios são demonstrados por fatos e decisões concretas, e não podem ser excluídos de uma análise abrangente.
Não podemos esquecer da interferência internacional do governo norte americano, através de Trump e Rubio e do Zukemberg e as manipulações das Big Techs.
Não creio que a retórica antissistema e o discurso anticorrupção utilizados pela direita, tenham tido maior impacto, até porque trazem as contradições do próprio campo bolsonarista, que não está imune a denúncias, questionamentos e práticas políticas que afirma combater.
A batalha das redes sociais e a necessidade de regulação
Um dos principais desafios da esquerda está na comunicação política. A eleição demonstrou, mais uma vez, que as redes sociais deixaram de ser apenas instrumentos de divulgação para se transformarem em espaços centrais de disputa política, formação de opinião e influência sobre o comportamento eleitoral.
O uso dessas ferramentas, inclusive por estruturas de atuação internacional, exige uma discussão séria sobre a soberania nacional e a proteção da democracia.
De forma inequívoca houve um desequilíbrio na aplicação das regras das plataformas digitais. Enquanto páginas, grupos e canais de apoio a Lula enfrentavam restrições, suspensões e dificuldades para ampliar seu alcance, estruturas de comunicação ligadas ao bolsonarismo conseguiam multiplicar conteúdos e mobilizar redes de maneira extraordinária.
A própria suspensão de canais vinculados à campanha de Lula e as controvérsias envolvendo e tentando derrubar o chamado “Exército do Lula” demonstraram a importância de discutir os critérios de moderação, alcance e funcionamento das plataformas.
O episódio envolvendo a tentativa de limitar a atuação desse movimento, por iniciativa do então presidente do TSE, também merece ser analisado à luz das decisões e dos acontecimentos daquele período.
O fato é que o “Exército do Lula” se consolidou como uma importante força de mobilização digital e ajudou a enfrentar a hegemonia conservadora nas redes.
Não podemos continuar tratando esse problema como uma simples disputa entre militantes. É necessária uma legislação abrangente, que estabeleça transparência, responsabilidade e regras democráticas para o funcionamento das plataformas, combatendo a manipulação artificial de informações, as redes de desinformação e a interferência indevida, inclusive estrangeira, nos processos políticos nacionais.
A liberdade de expressão precisa ser preservada, mas não pode servir de justificativa para a manipulação organizada da opinião pública.
A ausência de uma estrutura de comunicação comprometida com a democracia
Outro aspecto importante é a fragilidade dos setores progressistas na disputa pela comunicação de massa.
A grande imprensa brasileira, historicamente concentrada em poucas famílias e grupos empresariais, exerce influência desproporcional na formação da agenda política nacional. O chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG), expressão que caracterizar essa atuação, representa uma crítica à linha editorial e ao comportamento político da grande mídia.
É preciso reconhecer que importantes jornalistas, artistas e intelectuais brasileiros manifestaram apoio à candidatura de Lula e à defesa da democracia. Entretanto, manifestações individuais, por mais relevantes que sejam, não substituem a existência de uma estrutura permanente de comunicação, e indicam ser possível a criação de um competitivo instrumento de comunicação de caráter democrático.
O Estado brasileiro, por meio da publicidade institucional e de outros mecanismos legais, destina recursos expressivos aos grandes veículos de comunicação. É legítimo discutir os critérios de distribuição desses recursos, considerando a pluralidade, o interesse público e o compromisso com a informação de qualidade.
Não se trata de defender uma imprensa estatal ou partidária, tampouco de subordinar veículos de comunicação ao governo. A proposta é estimular, com critérios transparentes e democráticos, o fortalecimento de uma estrutura de comunicação independente, comprometida com a cultura, a democracia, a diversidade e o interesse público.
Uma rede de comunicação com essas características poderia oferecer contrapontos qualificados à cobertura dos grandes grupos, ampliar o espaço para diferentes interpretações dos acontecimentos e contribuir para enfrentar a desinformação.
Para isso, é necessária vontade política e uma estratégia de longo prazo. A comunicação não pode ser tratada apenas como instrumento auxiliar das campanhas eleitorais.
O desgaste natural da liderança de Lula
Outro ponto que merece atenção é a chamada fadiga de material.
A presença de Lula em uma disputa presidencial representa, indiscutivelmente, uma vantagem para o campo progressista. Sua trajetória, sua capacidade de diálogo e o reconhecimento nacional e internacional de sua liderança são ativos políticos extraordinários.
Entretanto, essa mesma presença também produz efeitos negativos. São décadas de ataques, campanhas de desqualificação, preconceito social e tentativas de associar sua trajetória política a uma imagem permanentemente negativa.
Há também um componente histórico e social que não pode ser ignorado: a resistência de parcelas das elites brasileiras à presença de um trabalhador, um operário, na Presidência da República, ocupando um espaço de protagonismo político e participando das grandes discussões internacionais sobre os rumos do mundo.
Lula reúne características que dificilmente serão reproduzidas por outro dirigente político. Entretanto, a esquerda precisa compreender que sua força eleitoral não pode se transformar em dependência permanente de sua liderança.
É necessário formar novas lideranças, ampliar a presença política nos estados e municípios e construir uma geração capaz de dar continuidade a esse projeto.
A capacidade de fazer alianças e a dificuldade de reproduzir esse modelo
Uma das maiores qualidades políticas de Lula é sua capacidade de construir alianças com setores diferentes, sem necessariamente abandonar os compromissos fundamentais de seu campo político.
A composição de suas chapas presidenciais com José Alencar e, posteriormente, Geraldo Alckmin demonstra essa capacidade de compreender a realidade política e construir maiorias.
Em ambos os casos, setores da esquerda aceitaram alianças com representantes de segmentos econômicos e políticos diferentes de sua própria origem ideológica, reconhecendo que a disputa pelo poder exige diálogo, composição e capacidade de negociação.
Esse entendimento, entretanto, nem sempre se reproduz nas disputas estaduais e municipais.
É frequente encontrar, dentro do próprio campo progressista, resistências à formação de alianças e a defesa de candidaturas chamadas de “puro-sangue”, mesmo quando a realidade política aponta para a necessidade de composições mais amplas.
A consequência pode ser o isolamento eleitoral e a perda de espaços estratégicos.
A esquerda precisa compreender que unidade política não significa uniformidade ideológica. É possível preservar princípios, defender um programa de governo e, ao mesmo tempo, construir alianças com forças que não compartilham integralmente de sua visão de mundo.
O custo da governabilidade e a força política do Centrão
Existe, ainda, uma contradição que precisa ser enfrentada: como reduzir a rejeição política a um governo que, para conseguir governar e aprovar projetos de interesse social, precisa fazer concessões a setores que nem sempre compartilham seus compromissos programáticos?
A necessidade de construir maiorias no Congresso Nacional leva o Executivo a negociar cargos, espaços institucionais e recursos orçamentários. Nesse ambiente, partidos do Centrão ampliam seu poder de barganha e transformam sua participação parlamentar em instrumento de fortalecimento político e eleitoral.
É uma relação que frequentemente produz desgaste para o governo, especialmente quando a população não distingue as responsabilidades do Executivo das concessões necessárias à governabilidade.
O problema, entretanto, não está apenas na negociação parlamentar. Está também na fragilidade da representação progressista no Congresso Nacional.
A votação de Lula nas eleições presidenciais não se converte automaticamente em bancadas de deputados e senadores capazes de sustentar seu projeto político.
Esse é um dos maiores desafios estratégicos da esquerda brasileira.
A estratégia territorial do Centrão e a disputa pelos estados
Os partidos do Centrão compreenderam há muito tempo que a conquista do poder nacional começa pela construção de estruturas políticas nos estados e municípios.
Sua estratégia não depende exclusivamente da eleição de grandes lideranças nacionais. Ao contrário, privilegia a formação de bancadas numerosas, compostas por parlamentares com forte influência regional e capacidade de mobilização eleitoral.
Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste representam espaços importantes dessa disputa. Em muitos deles, a construção de bases eleitorais municipais e regionais permite eleger deputados, senadores, governadores, prefeitos e vereadores, formando estruturas de poder que se reproduzem ao longo do tempo.
Esses partidos são, em grande medida, pragmáticos. Suas alianças e posições políticas frequentemente se orientam menos por compromissos ideológicos e mais pela possibilidade de conquistar espaços institucionais, ministérios, comandos de empresas públicas e influência sobre a distribuição de emendas parlamentares.
A força do Centrão está justamente na capacidade de transformar uma quantidade expressiva de mandatos individuais em poder coletivo de negociação.
Partidos como PL, PP, Republicanos, União Brasil e PSD demonstram, com diferentes características, a importância dessa estratégia de ocupação territorial e construção de bancadas.
Enquanto isso, os partidos progressistas frequentemente concentram seus esforços na eleição de lideranças de maior expressão nacional, especialmente nos grandes centros políticos e econômicos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Essa escolha tem seu valor, mas não pode representar o abandono de outros territórios.
O resultado é uma assimetria: a esquerda pode conquistar uma expressiva votação presidencial e, ao mesmo tempo, continuar minoritária nas casas legislativas.
O problema não é a qualidade das lideranças eleitas nos grandes centros. É a ausência de uma estratégia igualmente consistente para ampliar a representação progressista nos demais estados.
*A necessidade de mudar o foco eleitoral*
É hora de rever essa estratégia.
A esquerda precisa ampliar sua presença nos estados onde o Centrão construiu suas principais bases eleitorais. Acre, Pará e outros estados do Norte e Nordeste, por exemplo, não podem ser tratados como espaços secundários na estratégia nacional dos partidos progressistas.
O voto de um deputado eleito nesses estados tem exatamente o mesmo peso institucional daquele conquistado nos maiores colégios eleitorais do país. Uma bancada mais numerosa, comprometida com um programa democrático e popular, pode fazer diferença decisiva na aprovação de projetos, na defesa do governo e na sustentação de políticas públicas.
Isso exige investimentos permanentes na formação de lideranças regionais, na organização partidária, na presença municipal e na construção de candidaturas competitivas para as assembleias legislativas, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal.
Não basta aparecer nos estados durante o período eleitoral. É preciso construir presença política permanente, estabelecer vínculos com os movimentos sociais, compreender as realidades regionais e oferecer alternativas concretas à população.
A disputa pelo Congresso Nacional não pode começar apenas quando se aproxima uma eleição presidencial.
*Um projeto de poder que precisa ir além de Lula*
A vitória eleitoral de Lula, por maior que seja sua importância, não resolve os problemas estruturais da esquerda brasileira.
É necessário compreender que a disputa política ocorre simultaneamente em várias frentes: na comunicação, nas redes sociais, na cultura, nas igrejas, nos movimentos populares, nos governos estaduais e municipais e, principalmente, na representação parlamentar.
A esquerda precisa aprender com a estratégia de ocupação territorial do Centrão, sem reproduzir suas práticas políticas. Precisa ampliar alianças sem perder identidade, construir uma política de comunicação permanente e investir na formação de novas lideranças.
Lula demonstrou que é possível reunir forças diferentes em torno de um projeto nacional. O desafio agora é transformar essa capacidade individual em uma estratégia coletiva, capaz de sobreviver à sua liderança.
A questão central não é apenas como eleger Lula. É como construir uma força política e social suficientemente organizada para governar o Brasil, sustentar um projeto democrático e popular e disputar o poder em todas as instâncias da República.
Esse é o debate que a esquerda precisa enfrentar, com coragem, autocrítica e visão estratégica.
*José Marcos Araujo_ - Marcão Fonteles
Bancário aposentado, sindicalista e filiado ao PT - PA






