Para o jornalista Igor Felippe, a homenagem de André Vargas (PT-PR) a Dom Cicillo deixa lição: “A grilagem terras será recompensada”.
Por Igor Felippe Santos, especial para o Viomundo
O deputado federal André Vargas (PT-PR) apresentou em 2009 um projeto
de lei (PL 6.167/09) para nomear o trecho da BR-277 entre as cidades de
Paranaguá e Curitiba (PR) de Rodovia Cecílio do Rego Almeida.
Nesta quarta-feira, a homenagem foi aprovada, depois de parecer favorável de outro deputado do PT na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, José Mentor.
Por que uma homenagem dessas para um nome pouco conhecido?
Cecilio do Rego Almeida, que morreu aos 78 anos em 2008, foi presidente do Conselho de Administração do Grupo CR Almeida.
Almeida é paraense, mas mudou para o Paraná com 7 anos de idade.
O grande feito dele foi conquistar o título de “maior grileiro do mundo”, por concentrar fazendas que somadas são maiores que o estado da Paraíba.
Um homem só concentrou 6 milhões de hectares. Não, não é 6 MIL hectares, que já seria um baita latifúndio.
Em 2012, a subseção da justiça federal de Altamira, no Pará, recebeu os autos do processo sobre a grilagem.
O documento com 1.500 páginas, distribuídos em seis volumes,
demonstra as irregularidades – ou melhor, crimes – de Cecilio do Rego
Almeida para chegar ao topo do ranking dos grileiros.
A homenagem de André Vargas deixa uma lição: a grilagem terras será recompensada.
Abaixo, leia reportagem da Caros Amigos, de 2005 com perfil do homenageado.
Maior grileiro do mundo
Caros Amigos
Ano 09/2005
Edição 102
Na década de 1990, o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida grilou duas
fazendas no Pará, uma de 1,2 milhão de hectares e outra de 4,77 milhões
de hectares. Somadas, dão uma área maior que a do Estado da Paraíba. É
uma longa história, mas este mês a Polícia Federal deverá invadir a
maior delas a, fim de garantir uma liminar da Justiça que contesta os
direitos do empresário. Ele pode recorrer ao Tribunal Regional Federal,
mas enquanto isso não pode negociar a área, deve interromper qualquer
atividade ou ocupação dentro dela e dispensar a polícia particular que
mantém na fazenda. Aqui se conta quem é esse brasileiro cuja fortuna
chega a 5 bilhões de dólares e que concedeu a Caros Amigos uma
atordoante entrevista.
João de Barros, em Caros Amigos
Cecílio do Rego Almeida é um paraense corpulento, de 75 anos de
idade, cabelos inteiramente brancos e voz tonitruante, que enriqueceu
construindo obras públicas – no Brasil e no exterior. Seus olhos, quando
não estão ocultos sob os óculos escuros Armani, parecem dois canos de
uma carabina dupla pronta para disparar sobre o interlocutor.
Com patrimônio que ele mesmo estima em algo como 5 bilhões de dólares, Cecílio já apareceu na lista da revista Forbes entre os cem homens mais ricos do mundo. A empreiteira dele, a CR Almeida Engenharia e Construções, é o quarto maior grupo econômico privado do Brasil – e a principal construtora -, com patrimônio de 3,274 bilhões de dólares, segundo a publicação Melhores e Maiores da revista Exame, do ano passado.
Com patrimônio que ele mesmo estima em algo como 5 bilhões de dólares, Cecílio já apareceu na lista da revista Forbes entre os cem homens mais ricos do mundo. A empreiteira dele, a CR Almeida Engenharia e Construções, é o quarto maior grupo econômico privado do Brasil – e a principal construtora -, com patrimônio de 3,274 bilhões de dólares, segundo a publicação Melhores e Maiores da revista Exame, do ano passado.
Dom Ciccillo, como é chamado pelos íntimos, tem gênio explosivo e
teatral – e hoje é refém do temperamento que sempre cultivou. No passado
comparava-se a uma bulldozer, a barulhenta máquina de terraplenagem
usada na construção de estradas, cuja lâmina, enorme, derruba os
obstáculos naturais de matas fechadas, transformando-as em trilhas.
Ah, mas não fossem os muitos “filhos da puta’, como ele classifica,
que perpassaram seu caminho – da família aos negócios -, a vida do
empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, o dom Ciccillo, estaria
infinitamente melhor. Nesse instante, por exemplo, ele não estaria às
turras com autoridades da República, como o Ministério Público Federal, o
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a Fundação
Nacional do Índio (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nem com o Instituto de Terras
do Estado do Pará, o Iterpa, por causa do megalatifúndio que alega
possuir em Altamira, no Pará, maior do que o estado da Paraíba, razão de
seu título de maior grileiro do mundo.
Dom Ciccillo se diz dono de duas áreas amazônicas que totalizam quase
6 milhões de hectares. Uma é a fazenda Xingu, de 1,2 milhão de
hectares, formada a partir de 1997, pela compra de antigos seringais, ao
longo do rio Xingu, que pertenciam ao espólio de uma certa família
Moura. Segundo a Superintendência do INCRA, a área da fazenda Xingu se
sobrepõe às reservas indígenas do povo araueté, no igarapé Ipixuna,
paracanã, na reserva Apyterewa, e à Floresta Nacional do Xingu. Além
disso, a descrição do perímetro de todos os seringais que compõem a
fazenda – seringais Forte Veneza, Humaitá, Belo Horizonte, Mossoró e
Caxinguba – não bate com as coordenadas geográficas contidas nas
escrituras.
A outra, a fazenda Curuá, de 4,772 milhões de hectares, é uma
vastidão quase intocada. Rica em biodiversidade, sua floresta nativa
hospeda cerca de 350 espécies de árvores, 1.400 de vertebrados,
quinhentas de peixes e uma quantidade não estimada de insetos não
catalogados pela pesquisa científica. Pontilhada por dezenas de rios
perenes, muitos deles navegáveis, a região é abundante em madeiras,
nobres como o mogno e em reservas minerais como o ouro.
Ocupando mais da metade da vastidão florestal chamada Terra do Meio, a
Curuá, também conhecida como Ceciliolândia em alusão ao suposto
proprietário, abriga ainda três terras indígenas (das tribos xipaia,
curuá e caiapó-baú-mecranoti), a Floresta Nacional de Altamira e dois
assentamentos do INCRA (Nova Fronteira e Santa Júlia). Por lá vivem umas
duzentas famílias de ribeirinhos e extrativistas, distantes horas de
barco entre si, em situação de seno-abandono – quase todos analfabetos e
sem certidão de nascimento.
Uma viagem de barco de Altamira até uma das bases instaladas pela
administração da fazenda Curuá – na localidade de Entre Rios, onde os
cursos dos rios Curuá e Iriri se encontram antes de desembocar no rio
Xingu -, pode levar até dezoito dias no inverno (a época de chuvas) e
pelo menos uma semana no verão. Um vôo de Minuano leva uma hora e meia.
A grilagem e os grileiros
O interesse de dom Ciccillo pela floresta surgiu em dezembro de 1994, quando ele deparou com um anúncio publicado no jornal 0 Estado de S. Paulo
que oferecia, por 40 milhões de reais, “a maior fazenda do mundo”.
Meses depois, três assessores de Cecílio foram à sede do Iterpa e
manifestaram, diante de diretores da entidade, o desejo do patriarca de
implantar na área um projeto de preservação ambiental “auto-sustentável”
batizado de Floresta para Sempre. Na ocasião, os assessores teriam sido
alertados de que o Estado do Pará jamais fizera concessão de terras com
aquelas dimensões a particulares. Mais: foram informados de que se
tratava de patrimônio público, uma vez que não havia nos arquivos do
órgão nenhum registro de título definitivo expedido pelo Estado para
aquela localidade – Cecílio nega ter sido avisado e atribui a versão a
‘débeis mentais do Iterpa’.
O certo é que no dia 13 de junho de 1995 Cecílio fechou o negócio. Em
nome do filho Roberto Beltrão Almeida e da Rondou Projetos Ecológicos,
do grupo CR Almeida, ele comprou de Umbelino de Oliveira, empresário já
falecido, o controle acionário da Incenxil – Indústria, Comércio,
Exportação e Navegação do Xingu Ltda. -, que, de acordo com documentos
de procedência discutível, possuía o latifúndio como um ativo da
empresa, formado pela junção de dez glebas contínuas, todas elas na
margem esquerda do rio Iriri. Isso é o que está registrado no Cartório
de Registro de Imóveis da Comarca de Altamira, o Cartório Moreira.
A história dessas dez glebas remonta a 1923. Na ocasião, o governo do
Pará arrendou quatro delas, uns 30.000 hectares, a quatro comerciantes –
João Gomes da Silva, Francisco Aciolly Meirelles, Bento Mendes Leite e
Anfrísio da Costa Nunes -, permitindo-lhes o extrativismo nos castanhais
e seringais da área. Os quatro contratos eram idênticos. Rezavam que a
concessão não podia ser repassada a terceiros, sob pena de rescisão
imediata. E tinha de ser renovada anualmente; se não fosse, caducaria.
Nenhum desses itens foi respeitado.
Ao contrário, no dia 9 de janeiro de 1984, o cartório Moreira, de
Altamira, privatizou as terras públicas, transferindo as dez glebas – 4
milhões de hectares – aos herdeiros de um certo coronel Ernesto Acioly
dá Silva. Segundo atestou o cartório, a área teria sido adquirida, por
meio de “título hábil”, da Diretoria de Obra, Terras e Viação do Estado.
“Título hábil”? 0 governo do Pará jamais encontrou tal documento nos
seus registros de concessão de terras. Tampouco os supostos possuidores
do “título hábil” o apresentaram.
Em dezembro de 1993, a área mudou de dono. Umbelino de Oliveira,
representando a empresa Incenxil, compareceu ao mesmo cartório Moreira
e, diante da oficiala Eugênia Silva de Freitas, após à matrícula 6.411 –
a mesma que repassara as dez glebas aos herdeiros do coronel Aciolly -,
um mapa, elaborado em 28 de março de 1993 pelo agrimensor Nilson
Lameira de Souza, acrescendo mais 772.000 hectares de floresta aos 4
milhões de hectares, já “registrados” como propriedade particular. Para
dar ao mapa idade mais antiga e legitimar as operações suspeitas
realizadas no passado com a matrícula 6.411, a oficiala Eugênia lavrou a
certidão como se o documento tivesse sido elaborado dez anos antes – 28
de março de 1983.
Por causa dessa trajetória sinuosa e recorrente, de registrar
indiscriminadamente terras do Estado sem consultar o órgão responsável
pela política fundiária do Pará (que oficialmente legitima o registro
cartorial), dona Eugênia está sendo processada por crime de falsidade
ideológica Os advogados que a defendem foram contratados por Cecílio do
Rego Almeida.
Floresta de papel
O primeiro processo (270/96) contra as pretensões de Cecílio na
Amazônia foi ajuizado na comarca de Altamira, em agosto de 1996.
Trata-se da ação ordinária de nulidade e cancelamento de matricula
movida pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa) contra a empresa
Incerixil. A ação pede o cancelamento de registro da fazenda Curuá “em
vista de haver restado provado, após estudos e levantamentos, realizados
inclusive no próprio cartório, que jamais houve ato causal que
originasse a propriedade privada em questão’.
A ação está parada há quase dez anos. Durante todo esse tempo, o
Tribunal de Justiça do Estado não decidiu se tem competência jurídica
para julgar a questão ou se a remete à justiça Federal.
Em março de 2003, o Ministério Público Federal pediu à Justiça
Federal em Santarém que cancelasse todos os títulos de terra e registros
da fazenda Curuá e denunciou criminalmente os titulares da Incenxil e
dois oficiais do cartório de Altamira, entre os quais dona Eugênia, por
envolvimento em falsificação para a grilagem de terras da fazenda Curuá.
Por fim, no dia 14 de abril passado, o Ministério Público Federal,
por meio dos procuradores Felício Pontes Júnior, Gustavo Nogami e
Ubiratan Cazetta, ajuizou uma ação civil pública contra a Incenxil para
evitar que, com a criação, em novembro, da Reserva Extrativista do
Riozinho do Anfrísio, pelo presidente Lula, o Ibama seja obrigado a
indenizar 736.000 hectares declarados de interesse social a detentores
de títulos de terra abarcados pelo decreto – a Procuradoria da República
constatou que metade da área coincide com trechos grilados da fazenda
Curuá. “Em vista da histórica fraude’, escreveram os procuradores, “a
União poderá ser obrigada a desapropriar um imóvel que lhe pertence,
ocasionando vultosos prejuízos para os cofres públicos”.
Para eles, “o alastramento da corrupção perpetrada pela Incenxil nos
registros públicos do Pará significa o desordenamento agrário, a
violência no campo, a devastação ambiental e o sofrimento de milhões de
pessoas que poderiam e deveriam usufruir uma reforma agrária profícua’.
Em 12 de agosto passado, o juiz federal Fabiano Uerli ordenou que a
empresa Incenxil “interrompesse qualquer atividade ou ocupação na
fazenda Curuá” e que o imóvel “permanecesse indisponível para venda ou
troca’, além de suspender qualquer pagamento de indenização por parte do
Ibama. Na prática, a Ceciliolândia ficará intocada até o julgamento
pelo Supremo Tribunal Federal, caso a empresa recorra da decisão do juiz
Fabiano.
O QG de Cecílio
É de um palacete amarelo de piso de granito e paredes revestidas de
madeira, que ocupa uma quadra inteira da rua Vicente Machado, no bairro
Batel, em Curitiba, onde a modernidade da tecnologia não ofusca a
decoração clássica do interior, que dom Ciccillo toca seu império, como
presidente do conselho de administração da holding capitaneada pela CR
Almeida, o mega-grupo que controla uma penca de empreiteiras menores, as
estradas do sistema Ecorodovias-Imigrantes (SP), Caminho do Mar (PR) e
Ecosul (RS), a indústria de explosivos Britanite e a Rondou Projetos
Ecológicos.
Dom Cicillo parece estar sempre à beira de um ataque de nervos. Não, ele não conhece a revista Caros Amigos,
mas espera que ela não seja “marxista”, não de Karl Marx, mas de
Groucho Marx, uma vez que ultimamente só jornalistas “palhaços” o
entrevistam. O repórter há de entender. Ele, um empreiteiro de obras
fantásticas como a rodovia dos Imigrantes, que conquistou prêmios no
estrangeiro pela preocupação ambiental do projeto, não se prestaria a
perseguir ribeirinhos ou índios. Ademais, depois de cinqüenta anos
construindo o Brasil, como uma pessoa com o patrimônio que ele possui
poderia ter coragem de fazer grilagem? Para que uma pessoa assim faria
uma coisa dessa?
E a sua trajetória pessoal, doutor Cecílio?
Ele apanha uma edição da extinta revista Manchete
que o traz como um de dez personagens escolhidos pela publicação para
compor a série “Do Zero ao Infinito”. No alto da página, em letras
garrafais, aparece o nome “Cecílio do Rego Almeida” em vermelho, logo
abaixo uma declaração dele: “Eu joguei no desenvolvimento do Brasil”.
Cecílio relê a matéria saltando trechos. “Está tudo aqui, minha
infância, meus primeiros negócios, pode usar e abusar.”
Em seguida, apanha livros e folhetos que revelam a pujança do grupo
CR Almeida, do qual é o presidente do conselho de administração. Um
livro enumera as principais obras da empreiteira – rodovias, ferrovias,
aeroportos, metrôs, hidrelétricas, terminais marítimos e até o Maracanã,
inaugurado quando Cecílio tinha 20 anos de idade e não era nem
engenheiro. Explicação: como comprou, em 1974, a construtora Cavalcanti
Junqueira, que erguera o, estádio para a Copa do Mundo de 1950, ele
achou por bem incorporá-lo ao portfólio de sua empresa.
O batismo profissional de Cecílio ocorreu em 1952, quando ainda
estudava na Escola Federal de Engenharia, na rodovia Curitiba-Paranaguá.
A obra era tocada pela Lysímaco da Costa, a maior empreiteira
paranaense da época. Quando não estava estudando, e ele sempre foi um
dos melhores alunos da classe, Cecílio não saía de lá. O que via não o
satisfazia.
Por exemplo, fez as contas e percebeu que uma máquina substituiria
quatrocentos homens e faria “muito melhor” uma valeta longitudinal.
Ganhou pontos com a ‘descoberta’. Mais: para amortizar o preço da
máquina, afinal comprada pela Lysímaco, instituiu o trabalho noturno.
Outro ponto para Cecílio. No final de 1957, já formado e casado havia um
ano, ele era um dos engenheiros mais bem pagos do Paraná. E economizava
o máximo. Seu plano era construir um império.
No Natal desse mesmo ano, Cecílio rodou a baiana na empresa em que
trabalhava. Ele queria ir para casa, passar a festa em família, mas os
chefes, inexplicavelmente, adiaram sua saída por seis horas. Ele se
revoltou, brigou feio e pediu demissão “para não passar o vexame de ser
posto para fora. Pensou em partir para a Bahia, por causa dos poços de
petróleo descobertos pela Petrobras, mas a Lysímaco decidiu contratá-lo
como sub-empreiteiro e ele, então, montou a Engenharia e Construções C R
Almeida Ltda., em sociedade com o irmão Félix. Capital inicial: 2.500
cruzeiros. Cecílio dera o primeiro passo rumo à fortuna que almejava.
Montou o escritório na garagem da casa paterna e foi fazer bueiros de
pedra. Pedras? Cecílio já sabia que era muito mais negócio fazê-los de
concreto e investiu pesado na inovação. Passou a ser respeitado. Foi
chamado para construir 8 quilômetros de uma estrada num charco. Criou um
sistema de drenagem, deu certo e, com a bolada que faturou, passou a
ganhar mercado. Para aumentar a participação em obras maiores, ele
comprava empreiteiras concorrentes. Até que, em 1965, comprou a
Lysímaco. Cecílio já era o maior empreiteiro do Paraná.
Marchas e contramarchas
Para as aspirações de Cecílio não podia haver coisa melhor do que o
golpe de 1964. À fome dos militares por obras juntou-se a vontade de
comer de Cecílio. Cedo, mão e luva perceberam afinidades que os
aproximariam por longo tempo – a ponto de o magnata falar do período com
imenso carinho ainda hoje. O auge da união coincide com o tempo mais
bravo da repressão política da ditadura, o do general Emílio Garrastazu
Médici. A CR Almeida abocanhou no período 37 grandes obras do governo
federal, entre as quais a Estrada de Ferro Central do Paraná, a
pavimentação da rodovia Belém-Brasília, a Rodovia Rio-Santos, o terminal
marítimo do porto de Sepetiba, entre outras.
É nesse período, aliás, que Cecílio começa a ganhar notoriedade nacional – e a ser chamado de ‘dom Ciccilio’.
Acostumado a pagar as comissões de praxe – entenda-se propinas -,
algo tido como absolutamente natural no ramo, Cecílio foi surpreendido
pelo próprio Médici, que indicou (as eleições eram indiretas) o então
deputado federal Haroldo Leon Peres, um amigo com o qual o ditador se
divertia jogando biriba em Brasília, à sucessão de Paulo Pimentel no
governo do Estado do Paraná. A posse se deu em 15 de março de 1971 para
um mandato de cinco anos.
Tão logo assumiu o cargo, Peres chamou Cecílio para renegociar as
comissões sobre as obras em andamento, acertadas no governo anterior.
Cecílio disse que era impossível, mas o governador bateu o pé. Diante do
impasse, Cecílio marcou o acerto para o Rio de janeiro. O fim de semana
estava ensolarado e ambos resolveram passear a caráter na praia do Leme
– camisa aberta no peito, bermuda e chinelos. No bolso do empreiteiro,
um pequeno retransmissor emitia a conversa para o outro lado da rua,
onde era captada por receptores e gravadores de agentes do temido
Serviço Nacional de Informações, o SNI. A fita foi parar no Conselho de
Segurança Nacional, em Brasília. E Peres teve de renunciar ao cargo que
exercia havia oito meses.
Fanfarronices e ameaças
Denúncias de fraudes, subornos, sonegação de impostos, remessa ilegal
de dinheiro ao exterior, espionagem, grampos telefônicos, cárcere
privado, grilagem de terras, agressões e ameaças de morte recheiam a
biografia de dom Ciccillo. Com o tempo, sua fama de arquitetar vinganças
e perseguir inimigos só aumentou. Para propagar a força econômica que
detinha (e no início dos anos 1970 também o poder político), Cecílio
apresentava-se à sociedade como um caçador de bisonte”. Ao absorver a
ideologia anticomunista dos militares, Cecílio passou a andar armado e a
justificar o auto-apelido – caçador de bisonte – revelador da própria
truculência.
Cecílio voltaria à cena nacional em março de 1974, por conta de um
drama pessoal: seu filho César Beltrão de Almeida, de 12 anos, foi
sequestrado no dia 25 e libertado 35 horas depois, após o pagamento do
resgate exigido de 15 milhões de cruzeiros, equivalente hoje a 1,650
milhão de reais. Em Curitiba corre a versão de que Cecílio teria
castigado dois dos doze criminosos envolvidos no crime: o mentor do
sequestro foi jogado de um helicóptero em alto-mar. E outro detido, que
cumpria pena no Presídio de Ahu, foi brindado com injeções diárias de
hormônio feminino, afinou a voz, ganhou seios, perdeu pelos e virou
mulher de malandro na cadeia.
Os anos 1970 e 1980 prodigalizaram de vez Cecílio como personagem de
histórias aparentemente inverossímeis. Certa vez, temendo demorar para
receber um dinheiro da Companhia Vale do Rio Doce, ele chegou à sede da
empresa, no Rio de Janeiro, de pijama, empurrado numa cadeira de rodas
por um homem vestido de enfermeiro. Num dos braços recebia soro.
Dizendo-se à beira da morte porque sua empresa estava quebrando,
sensibilizou o diretor financeiro da companhia, doutor Moretzsohn, a
liberar rapidamente o pagamento.
Noutra ocasião, sentindo-se prejudicado numa licitação, Cecílio
viajou a Belo Horizonte com um bando de seguranças e obrigou um rival,
genro de um banqueiro mineiro, empreiteiro da falida Construtora de
Estradas e Estruturas S.A. (Ceesa), que ganhara a concorrência pública, a
engolir uma folha do contrato vencedor. De outra feita, quando soube
que a esposa de um desafeto da Companhia Paranaense de Energia (Copel)
traía o marido, gravou e distribuiu cópias de vídeo da mulher
frequentando um motel com o amante.
Seu currículo, porém, não apresenta apenas vitórias. Em 1986, a
justiça americana descobriu que o ex-coordenador da dívida externa
brasileira e então vice presidente do Morgan Bank, o venezuelano
naturalizado norte-americano Toni Gebauer, aplicara um golpe na praça,
surrupiando de Cecílio ao menos 2 milhões de dólares. E, em 28 de julho
de 1992, Cecílio deu muita sorte ao não embarcar no Learjet que usava,
prefixo PT-LHU.
O avião saiu de Curitiba com destino ao Rio de Janeiro com seis
pessoas a bordo. Caiu em Iguape, São Paulo. Ninguém sobreviveu. Nunca se
soube a causa do acidente.
Outra encrenca feia armada por Cecílio data de 1994. Ao ser
entrevistado em sua mansão curitibana, na verdade um forte fincado num
bosque, ele prendeu o repórter Policarpo Júnior e a fotógrafa Marleth
Silva, ambos da revista Veja. “Se levantar daí, não sai
mais da minha casa”, ameaçou. Os jornalistas esperaram um descuido do
sequestrador e ligaram para a sucursal de Brasília. Os dois só foram
libertados três horas depois pela Policia Civil do Paraná.
Uma de suas mais recentes estripulias veio à tona no ano passado,
durante as investigações da CPI do Banestado, quando se descobriu que,
no dia 9 de abril de 1998, governo FHC, Cecílio remeteu ao Brasil, a
partir de uma conta de doleiros do MTB Bank, de Nova York, 11 milhões de
dólares. O dinheiro foi convertido em reais sem passar pelo Banco
Central, o que constitui crime financeiro. Trata-se de uma das maiores
operações financeiras realizadas por pessoa física no país.
Na verdade, Cecílio não passou um ano sequer livre de encrencas nos
últimos trinta anos. São incontáveis as ações que move e responde nas
diversas áreas do direito, em diferentes cidades do país. Só no Paraná,
hoje, contam-se pelo menos 35 processos.
A entrevista
No dia 18 de abril passado, dom Cecílio seguinte entrevista a Caros Amigos:
Qual é a origem de Cecílio do Rego Almeida?
Eu tive um grande pai. Ele nasceu em 1891 e morreu em 1987: Raymundo
Ramos da Costa Almeida. A história dele está neste livreco que eu te
dou, feito pelo meu irmão Carlos do Rego Almeida. O livreto conta a
história de uma família pobre, mas que sempre teve honra. Aqui você terá
uma ideia de quem foi meu pai, um homem de simplicidade extrema, mas
que me passou e a todos os seus filhos coisas sábias. Como, por exemplo:
o homem só é um verdadeiro homem quando é leal e digno com sua família,
leal e digno com seus amigos e leal e digno com os menos favorecidos.
Eu considero esse pensamento profundo. Aqui, então, tem a história dele,
de uma família que sai de Pernambuco para o Pará, no início do surto da
borracha. Então, em vez de eu ficar lendo, é mais fácil o senhor
extrair o que quiser daqui…
O senhor é paraense?
Sou paraense, nascido em Óbidos. Vim com 2 anos para Curitiba. Éramos
em sete irmãos – três morreram. Um deles, que era um ano e oito meses
mais velho do que eu, foi um dos maiores médicos de toda a história do
Paraná, chamado Félix do Rego Almeida. Ele fez para mais de 40.000
operações e sempre na Santa Casa de Misericórdia Ele atendia de quarenta
a cinquenta pessoas por dia.
Seu pai fazia o quê?
Meu pai foi carteiro. Minha mãe era dona de casa, aliás, ótima dona
de casa Aqui, a fotografia de um amigo dele dos Correios, João Malta de
Albuquerque Maranhão. Esse João veio antes, com onze filhos. Como era
muito amigo do meu pai, escreveu uma carta para que saísse do Norte
porque em cem anos a nossa família não teria a oportunidade que o Sul
dava Então, viemos e ficamos hospedados na casa dele, em Curitiba. E
hoje essa família é como se fosse minha família, e minha família é como
se fosse a família Albuquerque Maranhão.
E como foi a sua trajetória pessoal?
Fui uma criança pobre que procurou estudar, e estudar à noite, que
começou a trabalhar de uma forma que parecia que eu estava no século 16,
porque eu fazia bueiros de pedra: fazia uma base, fazia dois muros de
pedra que em cima também era coberto de pedras enormes. Naquela época, o
tubo de concreto era muito caro. De Curitiba a Paranaguá tem uma série
muito grande ainda de bueiros de pedra. Eu trabalhei muito. E percebi
que ia levar uns trezentos anos para ser rico se continuasse a fazer
bueiros de pedra. Então, passei a fazer de concreto. Saímos da Idade
Média para o século 20. Foi aí que comprei betoneiras. Os operários, eu
vinha buscá-los aqui no albergue noturno. Meu transporte era um caminhão
Hércules diesel 1942, que eu mesmo guiava e servia pra tudo. Bem, em
1949 eu entrei na Escola de Engenharia, quando ela foi federalizada e
virou pública. E entrei um ano atrasado porque antes o ensino era pago e
não tinha condição de pagar – todos ajudávamos em casa. Fiz o primeiro
ano, o segundo, o terceiro. No terceiro, o professor de geologia era
dono da maior empresa de engenharia do Paraná. Eu não colava, era um
cê-dê-efe, cu-de-ferro. E geologia era matéria que os outros colavam. E o
professor sabe quando é colado e quando não é. Duas pessoas não
colavam: eu e o filho de um padeiro, Roberto Brandão. No fim do ano ou
no começo do ano seguinte, esse professor me chamou para me entrevistar.
Ele disse que tinha uma vaga, mas duas pessoas – eu e o Roberto, que
era meu amigo. Eu disse: “Olha, professor, vamos fazer da seguinte
maneira: chama o Roberto porque ele está mais na merda do que eu, então é
merecedor disso, mas eu gostaria que o senhor guardasse uma vaga para
mim também, no futuro. Para meu espanto, ele me chamou. Não fiz nada de
errado, o Roberto é meu amigo até hoje. Estou há cinqüenta anos
construindo no Brasil e tenho uma comenda por nunca ter sofrido
penalidade ética alguma durante cinqüenta anos.
Vamos seguir a linha do tempo. Como era tratar, durante o
regime militar, essa questão de obras, que naquela época servia à
propaganda oficial do governo, da Transamazônica, do lema “País que vai
pra frente”? Gostaria que o senhor fizesse uma análise desse período.
Vou te responder: entendo que foi uma ditadura, mas a mais leve das
ditaduras. Hoje existe uma ditadura do PT mais forte do que a dos
militares. Se você pegar o primeiro marechal, o Castelo Branco, esse
homem foi um grande estadista. De total probidade. Levou gênios para o
seu governo, como o Roberto Campos, o Bulhões. Só esses dois nomes
transformaram o Brasil. Peguei obras nesse governo Castelo Branco. Eram
concorrências. O Costa e Silva durou muito pouco tempo. Em seguida
entrou o Garrastazu Médici. Eu sei que foi um governo duro. Houve mortes
– houve um negócio lá no Norte do Brasil – que eu condeno. Mataram o
Herzog durante o regime militar, mas na época ficava tudo na base do
ouvi dizer (que foram os militares). Igual ao que faz hoje esse relator
da CPMI da Terra, que fica só na base do que ouve dizer, do que está nos
jornais.
Bem, mas no Médici houve muita obra, trabalhamos muito. Ele tinha um
grande ministro a quem chamavam de ladrão, o Andreazza. Um absurdo o que
fizeram com esse homem. Ele morreu pobre, de câncer, e a família não
tinha dinheiro para enterrá-lo. Fui um dos empreiteiros que deram
dinheiro. Nunca houve a menor corrupção nossa com o Andreazza. Uma coisa
fantástica: você ganhava dinheiro e obras e tudo sem ter de pagar
corrupção.
Como se faz a cabeça do empreiteiro para aceitar o esquema do
caixa 2, a corrupção, o financiamento de campanha? É na base do, se não
der, não participa?
Depois da lei 8.666, e mesmo antes dela, havia a concorrência. São os
atestados que a pessoa tem. Daí inventam tudo quanto é manobra para
tirar esse, pôr aquele. É inventada a manobra. Quem criou isso muito foi
o genro do Antônio Carlos Magalhães, que é meu inimigo, um grande filho
da puta chamado César Mata Pires. Ele inventou a coisa mais fantástica.
Inventou franchising de balcões de corrupção. Conseguiu trezentas
emendas no Congresso Nacional para obras dele. E eu destruí essa boca
dele, fui eu.
Como o senhor briga num caso desses?
Eu sabia que ele tinha um homem no exterior, o Raul Gigante. E
contratei policiais aposentados da Scotland Yard que filmaram o homem
dele viajando de helicóptero para a França, para a Suíça. No dia em que
ele veio para o Brasil com a mulher, fui avisado que eles estavam nos
bancos 2A e 2B da British Airways. A Polícia Federal foi avisada e
prenderam o cara com uma vasta documentação. Fiz isso porque ele foi
muito filho da puta comigo. Eu pedi concordata em 1998 por causa desse
César Mata Pires, mancomunado com a Sônia Alves, uma jornalista do Jornal da Tarde,
de São Paulo. Houve um acerto com a Receita Federal e sai nesse jornal:
“CR Almeida arromba os cofres públicos: 578 milhões de dólares”.
Dias antes, houve uma fiscalização da Receita, que me multou em 178
milhões de dólares. Era tão cretina a multa que, no primeiro
requerimento administrativo ao próprio filho da puta que era da Receita
Federal, baixaram 100 milhões de dólares. Isso foi de 1993 para 1994. Eu
tinha ido para a China, nós montamos negócio na China, depois descemos
para a África do Sul, porque minha mulher queria conhecer uma reserva de
lá. Tive a notícia em Joanesburgo e, quando cheguei no Brasil, dei
ordens para o presidente da empresa: “Peça concordata amanhã cedo.
Senão, nós quebramos”.
Eu sabia que ia quebrar. E agora, há pouco tempo, desses 178 milhões
sobram 2 milhões que nós estamos brigando no Conselho de Contribuintes.
Não é o fim do mundo? Não pode ficar parado, tem que sair pra briga, tem
que sair pra quebrar as pernas. Esse é o jogo.
E quando muda o governante muda o jogo?
Muda e não muda.
Vamos continuar, então, passeando pelos governos, estávamos no governo Figueiredo…
Bom, eu quero elogiar os governos da revolução. Agora, sou altamente
conceituado no meio empresarial de empreiteiros do Brasil. Minha palavra
vale, meu nome é respeitado, nunca houve um caso de entregar alguém. 0
único caso que houve foi o desse vagabundo, desse genro do Antônio
Carlos Magalhães. No governo Collor fui investigado pela CPI dos
Empreiteiros, inventada pelo Jarbas Passarinho, tenho documento disso.
E o que se fala do governo Collor aconteceu mesmo?
Aconteceu. E o mais digno deles era o PC Farias, um homem que tinha palavra. 0 resto era merda.
Muitos falavam em nome do presidente Collor para se beneficiar?
Alguns apareciam, como esse Edemar Cid Ferreira, esse ladrão do Banco
Santos. Ele era ladrão lá atrás. E outros. Tem o episódio de um merda
que chegou lá bonito, arrumado, e veio cobrar um percentual de um
dinheiro que estava recebendo no governo Collor de obra que tinha sido
feita no governo anterior. E o cara queria um percentual alto. Eu estava
armado, revólver. Porque eu tinha briga com esse César Mata Pires. Daí o
cara disse: “Estou aqui, não sei se você recebeu a fatura”. Eu disse:
“Sim, recebemos”. “Não, é que eu tenho um percentual:’ Aí eu disse:
“Tenho só uma pergunta a lhe fazer: o senhor comeu merda hoje, não foi?”
0 cara era maior que eu. “Como?” “0 senhor, estou perguntando, comeu
merda hoje, merda, cocô?” 0 cara não sabia o que fazer. E eu: “Está me
achando com cara de que, seu filho da puta! Você vem ao meu apartamento
me dizer uma merda dessa, seu cretino!”. “Não, o PC, não sei que” Bem, o
cara percebeu que eu estava armado e afinou.
Quem era o sujeito?
Morreu já. Era um baiano que tinha uma companhia de transporte coletivo em Salvador. Eu liguei e o PC disse:
Não, o cara é meu amigo”. Eu disse: “Mas esse filho da puta, na minha frente, e eu com a mão no revólver, esse filho de uma puta quer esse percentual”. E o PC disse: “Não foi isso que eu disse a ele”. Eu disse: “Quanto?” O PC disse: ‘A metade’.
Não, o cara é meu amigo”. Eu disse: “Mas esse filho da puta, na minha frente, e eu com a mão no revólver, esse filho de uma puta quer esse percentual”. E o PC disse: “Não foi isso que eu disse a ele”. Eu disse: “Quanto?” O PC disse: ‘A metade’.
Normalmente, quanto é a comissão?
Esse César Mata Pires paga qualquer comissão. Porque ele rouba, né?
Ele foi contratado para fazer o rebaixamento da calha do rio Tietê e não
fez. Ele mentiu na topografia. Deu uma enchente e morreram catorze
pessoas. Ele topa qualquer negócio. É um porco. Das empreiteiras, é o
que destoa, ele destoa dos outros. Porque, se você pegar a Camargo
Corres, o Sebastião Camargo é um cara fantástico, meu amigo, eu ia lá
pedir conselho para ele, é bem mais velho do que eu; o pessoal da
Andrade Gutierrez, corretíssimo; CBPO, pessoal de primeiro mundo em São
Paulo; o Lacombe, que já morreu, era corretíssimo. Todos honram o que
falam.
Normalmente, quanto é a bola?
Não, isso eu não vou dizer.
E no governo do PT houve alguma mudança?
Não sei se existe porque eles não fizeram nada. Dois anos de governo
sem nada, nada foi feito. Então não posso falar. E dessas obras futuras
nem posso dizer porque nem saíram os editais. Mas acho que, com as
parcerias público-privadas, a corrupção em obras no Brasil virou a
página. Porque, na PPP, você é que entra com o dinheiro. O governo dá a
concessão. Veja a nossa obra na Imigrantes. Ela consumiu 400 milhões de
dólares, sem um único centavo do governo – zero. O trabalho principal
foi o ambiente, uma coisa fantástica. Recebeu prêmios no estrangeiro.
Você constrói para ser o dono, então isso vai sanar esse aspecto. Vai
estimular a competição entre as empreiteiras.
E não vai acirrar o ânimo entre vocês?
Não. Vai ter para todos. E você não estará fazendo obras para o
governo, mas para você mesmo. Você vai ter a concessão por vinte, 25
anos, vai fazer o melhor tipo de obra com o menor custo ao longo do
tempo, não é isso? Senão, você perde dinheiro. Porque daí o panaca que
passa de carro paga o pedágio. Também tem casos em que a gente paga uma
taxa ao governo.
Com as terras do Pará o senhor faria parceria?
Eu tenho 75 anos de idade. Faz dez anos que comprei essa merda lá no
Pará. Você acha que uma pessoa que construiu estradas, ferrovias,
barragens, túneis, portos, aeroportos pode pensar em querer fazer uma
grilagem na terra em que nasceu? Isso, qualquer cabeça sã não aceita, é
impossível que venha a ser acusado de perseguir ribeirinhos ou índios.
Só uma montagem feita pelo procurador da República do Pará, chamado
Felício Ponte, que há dez anos não faz outra coisa a não ser perseguir a
nossa empresa. Esse Felício Ponte se julga um vice-rei da Amazônia. Vou
entrar com representação contra ele na Procuradoria da República e,
também, vou processá-lo. Não é possível que um país como o Brasil, em
plena democracia, tenha medo ou do partido dominante ou da promotoria
pública. Eu não tenho.
Então, vamos esclarecer de uma vez por todas, doutor Cecílio. Quando, como e por que o senhor adquiriu as terras no Pará?
Em dezembro de 1994, h classificado em jornal de circulação nacional
que anunciava a venda dessas terras no Pará. Interessei-me. Seria uma
oportunidade de enfrentar um novo desafio. Fui ao então governador do
Pará, Almir Gabriel, que fora senador junto com meu irmão Henrique.
Queria informações sobre as terras, especialmente as anunciadas no
jornal, que eram de propriedade da empresa Indústria, Comércio,
Exportação e Navegação do Xingu Ltda. – Incenxil. A resposta levou à
conclusão de que o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) não era
organizado o suficiente para dar informações precisas. Fui, então,
apresentado ao dono da Incenxil o senhor Umbelino de Oliveira, que havia
mais de trinta anos explorava as terras de forma não predatória, com
extrativismo de látex, castanha, tendo sido o maior produtor do Estado
do Pará durante muito tempo. Mostrei meus planos a ele e ele me disse
que venderia a empresa até mais barato, pelo fato de ser um projeto
inovador, que não destruiria a floresta de onde ele tinha tirado seu
sustento. A compra foi feita em Belém no dia 13 de junho de 1995.
Mas por que diabo o senhor comprou essas terras no Pará, porque estavam em oferta?
Não. Se você pegar o mapa, eu nasci em Óbidos, o meridiano que passa
por Óbidos passa por essas terras. Essas terras são no Pará. Eu não ia
fazer uma fundação. Eu ia fazer um instituto com o nome da minha mãe
para desenvolver esse projeto ao longo de duas gerações. Meu sonho era
buscar o que havia de melhor de seringueiras na Ásia, que foi roubado do
Brasil em 1930, mais ou menos. Esse seringueiro que se fodeu, que
mataram, o Chico Mendes, era um líder mesmo, viu? Eu ia abrir essas
terras aos seringueiros, dando a eles o que há de melhor em matéria de
sementes, mudas. Tendo funcionários da Embrapa e aqui do Paraná da
Emater, aposentados, homens de mais de 50 anos de idade que quisessem
aceitar esse desafio de mudar uma região e melhorar a vida desses seres
humanos. Isso é o meu sonho. Há outros. Você sabe que o jacaré é um
bicho muito valioso. Claro que você não pode matar o jacaré hoje. Mas o
jacaré de criatório você pode. E é a coisa mais simples do mundo fazer
um criatório de jacaré. A mesma coisa, a tartaruga fluvial. Pensava
também em um sócio japonês para criatório de peixes amazônicos, peixes
de 2 metros, 300 quilos, desviando com dutos a água do rio para a
criação. Claro, eu preciso energia, preciso a tecnologia dos japoneses
em matéria do empacotamento do peixe congelado. Vá somando essas coisas.
Eu ouvi que foram presos na Amazônia uns franceses que chegaram de
balão – eles fizeram errado, coitados. Eles desciam na copa das árvores
com uns sapatos parecidos com essas raquetes de tênis para colher
microrganismos – e roubavam, também, claro, toda uma sabedoria indígena
de cura com ervas, Vem aí o biodiesel. E você tem o dendê, que dá muito
bem lá.
Por quanto o senhor comprou essas terras?
Paguei o equivalente a 6 milhões de dólares. O tamanho da área que comprei é de 4 milhões, 772.000 hectares.
Segundo o artigo 188 da Constituição, o senhor teria que ter uma autorização de compra pelo Congresso Nacional.
Não tinha nada A propriedade é anterior à Constituição. Depois que existia essa propriedade é que vieram com esse papo. Mas e o direito adquirido, de antes? Teria que passar pelo Congresso Nacional? Isso apareceu numa Constituição, não sei se de 64 ou 88, e a propriedade é de antes. Pode perguntar para qualquer advogado, que não precisa passar pelo Congresso. Isso é uma besteira, é coisa de comunista burro. Daí, um débil mental chamado Paraguaçu Éleris, que era diretor do Iterpa, e o outro, o presidente, que era o Barata, vieram dizer que me avisaram. Mentira Eles não avisaram merda alguma E, mesmo que tivessem avisado, eu não ia acreditar nos débeis mentais. O Iterpa foi fundado em 1975, teve vinte anos para regularizar a parte fundiária do Estado. Faltava um mês para completar os vinte anos e eles não tinham feito absolutamente nada Então, por que é que eu iria perguntar ao Iterpa se podia possuir a área?. Simplesmente não fui. Oito meses depois que as terras eram minhas, procurei o Iterpa já com um pré-projeto para fazer uma parceria com o governo do Pará. Eu queria que o povo do Pará participasse também, via governo. Com a regra lógica de que o dono era eu. Eu não ia ficar subordinado a funcionário público.
Segundo o artigo 188 da Constituição, o senhor teria que ter uma autorização de compra pelo Congresso Nacional.
Não tinha nada A propriedade é anterior à Constituição. Depois que existia essa propriedade é que vieram com esse papo. Mas e o direito adquirido, de antes? Teria que passar pelo Congresso Nacional? Isso apareceu numa Constituição, não sei se de 64 ou 88, e a propriedade é de antes. Pode perguntar para qualquer advogado, que não precisa passar pelo Congresso. Isso é uma besteira, é coisa de comunista burro. Daí, um débil mental chamado Paraguaçu Éleris, que era diretor do Iterpa, e o outro, o presidente, que era o Barata, vieram dizer que me avisaram. Mentira Eles não avisaram merda alguma E, mesmo que tivessem avisado, eu não ia acreditar nos débeis mentais. O Iterpa foi fundado em 1975, teve vinte anos para regularizar a parte fundiária do Estado. Faltava um mês para completar os vinte anos e eles não tinham feito absolutamente nada Então, por que é que eu iria perguntar ao Iterpa se podia possuir a área?. Simplesmente não fui. Oito meses depois que as terras eram minhas, procurei o Iterpa já com um pré-projeto para fazer uma parceria com o governo do Pará. Eu queria que o povo do Pará participasse também, via governo. Com a regra lógica de que o dono era eu. Eu não ia ficar subordinado a funcionário público.
Como seria a parceria?
Faria uma parceria, eles teriam 5 por cento. Porque, se eu tivesse o
governo do Pará como parceria, eu teria poder de polícia via meu
parceiro. Isso era importantíssimo, ter poder de polícia isso é meu. Uma
vez feita a parceria com o governo do Pará, eu traria a Universidade do
Maranhão, a Universidade do Pará, a Universidade do Amazonas, o
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Goeldi,
que faz parte do governo do Pará. Aqueles armazéns no porto de Belém,
que os ingleses fizeram, que subiu a areia e não existe mais o porto lá,
esses armazéns pertenciam ao Ministério dos Transportes. Eu queria
ficar com eles para fazer uma Escola de Ecologia. E mais tarde pretendia
fazer um negócio de turismo para hotel. Abrir novos cursos. Pra ajudar.
Entrava o governo do Pará. Foi aí que o Iterpa entrou com uma ação de
anulação de nossa matrícula, esse Felício Pontes com o próprio Lamarão
do Iterpa, que falou de mim e eu processei e está para ser preso – ele
que não fale mais um pio de mim, que ele vai ser preso, deixou de ser
réu primário. Porque foi a maneira que encontrei de calar a boca desses
filhos da puta. Tem também um merda de um jornalzinho de lá chamado
jornal Pessoal. Esse eu também processei. Tá no bico pra ser preso. Ele
já foi processado por um desembargador e foi condenado, então não é mais
réu primário.
Legalmente, o senhor ainda não é dono da terra.
Besteira. Eu sou dono da terra. Estão grilando a minha terra. Mas eu
estou na moita, não adianta brigar agora, não é hora. Você tem que
esperar. Depois é que veio esse troço da matrícula, que esses filhos da
puta agora querem anular dessa maneira, a mais cretina possível.
O que se alega para anular?
Não alega nada, eu posso dar a ação para você ver, é uma merda.
Como o senhor toma conta de uma área do tamanho da Bélgica?
Duas vezes a Bélgica. Já havia brigas na estrada BR-163. Invadiram.
Eu sei como vou fazer no futuro. Não vou brigar com invasores, mas vou
fazer parceria com os caras que estão na minha terra. Eu não vou brigar
porque vou conseguir a expulsão deles da terra. Agora, não, mas no
futuro…
O senhor está trabalhando na moita…
Estou quieto com relação às invasões. Mas é gente que está fazendo
plantações. 0 cara não está derrubando madeira. Mas já teve gente lá
para derrubar madeira. E esse é ladrão.
Como o senhor vai fazer com essa turma?
Ah, esse não entra, esse tem medo. Eu consegui expulsar o maior
ladrão de madeira do Pará, ele agora vai derrubar madeira no Peru. Esse
cara sumiu. Ele entrava com um grupo com trator, motosserra. Nós
apreendíamos tudo.
Como?
Entrávamos em juízo, o juiz determinava que o secretário de Segurança
providenciasse para que a Polícia Militar e a Polícia Civil fossem ao
local para a apreensão, levassem fiscais do Ibama, que só eles têm poder
sobre crime ambiental. Só que os caras do Ibama são mancomunados com os
madeireiros, e os caras do Ibama ficavam putos mas iam, era uma ordem
judicial. ‘:Ah, mas precisa de avião” Eu punha avião. Daí tiravam os
caras de lá e a madeira que eles cortavam ficava lá. Eu consegui deixar a
madeira num fiel depositário lá em Altamira. Daí, um ministro da época,
do Meio Ambiente, chamado José Carlos Carvalho, fez um farol, desceu lá
vestido de Rambo, com exército, para apreender a madeira que eu havia
apreendido, e doou para uma ONG. Foi um chucho.
O que é chucho?
Chucho é marmelada, sacanagem.
Como a área do senhor é muito grande, como sabe exatamente onde eles vão atacar?
Nós temos guias. Se vierem de barco, em geral vêm de barco… 0 rio
Curuá se junta ao Iriri numa ponta que é a Entre Rios, que é como se
chama esse lugar onde tem pista de pouso, tem casas, tem gente nossa,
tem rádio para comunicar Altamira, Altamira comunica Belém para,, em
seguida, desencadear a ação. Então, nós compramos ali 4 milhões e
772.000 hectares e compramos mais uma posse de não sei quantos anos de
uma família chamada Moura, de 1 milhão e 200.000 hectares. São, então,
duas áreas: uma é a fazenda Curuá e a outra, que era da família Moura,
fazenda Xingu.
Mas a acusação é de que a compra da Curuá foi registrada num cartório cuja funcionária teria sido processada por corrupção ou coisa do gênero.
Mas a acusação é de que a compra da Curuá foi registrada num cartório cuja funcionária teria sido processada por corrupção ou coisa do gênero.
Não foi. Tem ainda um processo. Não conseguiram comprovar. Ela está
lá. Ela é de Altamira. É uma mulher que sofre de elefantíase, as pernas
deste tamanho, tem dezesseis filhos adotivos, tem filhos formados, e é
de uma bondade incomensurável. Dona Eugênia. Essa mulher é que querem
pintar disso e eu pus advogados para defendê-la.
Não seria nenhuma troca de favor entre o senhor e ela?
Não, porque esses documentos foram feitos lá por 1984. Eu comprei a
empresa que era a dona da matrícula, não tem nada a ver com dona
Eugênia.
E esses 1,2 milhão de hectares?
Isso é fora, é uma outra área no rio Xingu, eu te mostro no mapa.
Se existe um vice-rei no Pará, o rei seria o senhor?
É a primeira vez que ouço isso. Isso foi inventado por você.
Rei do Pará, rei da Amazônia?
Nunca vi isso escrito em jornal, em revista. O que existia é que eu
tinha uma terra tão grande que se chamava Ceciliolândia – foi coisa
desse filha da puta do Roberto Guita.
Por que o senhor sempre surge na imprensa como a pessoa que é o maior grileiro do mundo?
Tudo iniciou com o Roberto Civita. Eu estava entrando num novo
negócio no Brasil,que é transmissão de dados – de bancos, de grandes
companhias. Aí, eu aluguei seis transponders, que servem para captar e
enviar mensagens via satélite. O aluguel era de 23 milhões e 900.000
dólares por ano, quase 2 milhões de dólares por mês. E ele me atacou,
pensando que eu ia entrar em televisão a cabo.
Como o senhor sabe que foi isso?
Ah, como é que eu sei? Claro que eu sei. Eu consigo saber as coisas.
Ontem, nós não estávamos na CPMI e eu já sabia dessa nova ação contra as
minhas terras? Como é que esse palhaço desse relator do PT (deputado
João Alfredo, PT-CE)..) ele foi filho da puta, começou a me irritar. Por
que eu engrossei com ele? Não aceitei fatos em jornais. Porque isso é
prato requentado. São notícias requentadas. Você põe uma em cima da
outra e são todas iguais, em todos os jornais, em todas as revistas.
Toda vez que o filho da puta do Felício Pontes quer alguma coisa, o Carlos Mendes, redator de O Liberal,
aperta um botão e nós temos no Brasil inteiro essas notícias. São essas
pessoas. E um outro jornalista, um cretino que eu mandei para lá e
ficou com raiva do nosso grupo. Agora, como eu posso chamar um cara que
trabalhou comigo e, depois, para ganhar 150.000 dólares – que vai ser
pedida a quebra do sigilo bancário dele e ele, ó, vai para o espaço.
Quem é?
É o Tarcísio Feitosa, um merda que trabalha na Comissão Pastoral da
Terra, um caboclinho, que agora está bonito lá, de caminhonete. Acho que
também é do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e de outra merda
lá.
Como grande proprietário rural, o que o senhor acha do MST e da UDR e como vê o futuro no campo?
Isso não é problema meu, é problema do Lula. Mas você acha que esse
monte de menos favorecidos, analfabetos têm capacidade de fazer uma
agricultura? Capacidade para criar umas galinhas, um porco, isso eles
têm. É só ver a fazenda que o governo comprou, a fazenda Itamarati, do
Olacyr de Moraes, ficaram com a metade. Eles roubavam os equipamentos da
fazenda. E se foderam lá. Totalmente. E ainda queriam a outra metade do
Olacyr!
Isso é negócio do Pedro Stedile, do Rainha, de tirar dinheiro de
miserável. Quem tinha razão nisso era aquele coronel Neves (Neves está
preso em Curitiba, acusado de tráfico de armas e formação de milícias
para a UDR). Não sou favorável à tortura, à violência, acho um absurdo
um sujeito entrar numa casa – essa história é complicada porque o MST
invadiu, mas tudo bem – com criança, com mulher de camisola, seminua,
como se pode fazer uma coisa dessa? Acho isso uma coisa brutal. Se ele
realmente fez isso, eu quero que ele se foda. Agora, o contrário também é
verdadeiro. Por que esse merda desse Rainha tem direito de entrar na
propriedade alheia, do sujeito que comprou, pagou? Claro que tem que se
formar uma reação, que é a UDR. Claro. E eu até acho a UDR muito frouxa.
Se eu fosse ruralista, essa merda não estaria assim.
Estaria como?
Ah, estaria resolvido. 0 Roberto Requião fazia os sem-teto entrar nas
minhas propriedades, cercava lá com tratores, arrebentava a luz e
entrava na minha propriedade. Arrebentava a luz, arrebentava a água,
fazia um fosso em torno das casas. Eu tinha centenas ou milhares de
casas aqui em Curitiba. Vendi tudo.
Mas como o senhor acha que poderia ser resolvido o conflito?
Só na força. Não tem outra maneira: só na força! A propriedade é minha, não entra (exaltado, dá um tapa no vidro da mesa).
Entra algum vagabundo na sua casa?
O pior é que de vez em quando entra.
E o que você faz?
Vou para o banheiro onde eles colocam a mim e a minha família, enquanto rapelam a casa.
Chama a polícia…?
Chamo a polícia.
No meu caso eu tenho granadas. Tenho aqui em Curitiba e tenho em Morretes. Granadas.
Como o senhor agiria no meu caso?
Eu faria exatamente como você fez. Se eu estivesse com minha família,
meus filhos pequenos, eu tirava meu relógio, tome o relógio, só não
quero que façam nada com a minha mulher. 0 melhor banheiro que tenho
para vocês me prenderem é aquele, tome a chave, me prendam lá. Você não
foi covarde, foi inteligente. Deve ter sido preto esse filho da puta que
entrou, né?
Não. Um mulato e dois brancos.
Brancos… deviam estar cheirados. Muito bem. Eu tenho uma propriedade,
uma fazenda, vamos dizer, porque eu vi um palhaço do Paraná.. Porra,
com uma indústria lá dentro, o melhor em matéria de plantei, de gado.
Você acha que eu vou deixar vagabundo entrar e fazer churrasco com o meu
gado?… Milícias? Não. Eu faria treinamento para os meus operários, com
calibre 12. Treinava os meus funcionários a se defenderem. Que direito
tem esse filho da puta, esse maluco do Pedro Stedile? Ele não quer a
reforma agrária, ele quer a revolução. Ele quer alcançar o poder, esse
idiota. Você acha que isso é uma coisa de coitadinho? Faça um somatório
de tudo o que produziram todos esses assentamentos: uma merda.
Há assentamentos que são exemplo de reforma agrária, em Santa
Catarina e no Rio Grande do Sul. Mas veja, esse ponto de vista é o
inverso. Hoje, quantos assentamentos deram certo? Quantos? Cinco, seis.
Por que eles não imitaram esses cinco, seis, para os outros? Hoje, o
sem-terra é dono de botequim, é dono de loja, tem automóvel. É isso que
está havendo: muita corrupção. Venda de lotes já pegaram mil vezes. Mas
como o pessoal do MST é rico, e só tem comuna no INCRA, que acha que tem
que tirar dos ricos para dar para os pobres… Os caras estão brincando.
Eu defenderia a minha terra.
Para defender suas terras lá no Pará, o senhor precisaria de um pelotão.
Não, não, uns trinta homens armados com rifles da policia.
Para cuidar da Bélgica inteira?
Não, da Bélgica inteira, não, dos focos. Prendia os tratores, prendia o equipamento. Algemas, mandava sacos de algemas.
Com polícia particular?
Eu, não, quem faria isso seria a polícia, o Estado.
Porque o senhor tem facilidade de chamar?
Não, eu não tenho a facilidade. É uma ordem judicial, porra.
Um momento, acho que estou me expressando mal, desculpe.
Quero dizer o seguinte: o senhor tem uma área de terra do tamanho de
duas Bélgicas, como o senhor falou. O senhor tem tantas entradas nessa
fronteira…
Agora, nessa nova terra, na fazenda Xingu, esse Bida, que matou a
freira americana, já tinha desmatado 6.000 hectares. Depois desse
assassinato ele voltou lá, se escondeu lá.
Nas suas terras?
Não, lá perto. Nessa CPMI eu fui chamado por causa de um artigo do
Carlos Mendes. Dizia: ah, prendemos, despejamos agricultores, pequenos
posseiros, coitadinhos. Não! Pegamos posseiros, porra, tinham devastado
6.000 hectares de floresta para plantar sementes para boi, para capim
(pega o mapa). Essa é uma área, a de 4 milhões e 772.000, e essa é a do
Xingu (de 1,2 milhão de hectares). Foi por aqui, assim, que eles .. eles
querem formar tudo isso aqui como parque roubando a mim.
O senhor acha que um dia suas terras podem voltar a ser da União?
Paguem, ora. Eu ia procurar receber o valor potencial, que eu venho
com isso há dez anos. Não é só a terra em si, é o valor que está acima
da terra.
Mas normalmente a desapropriação é feita..
Não, você está enganado. Isso é só pra bobo.
Como seria feito então?
Em alguns casos têm que pagar o que está acima da terra, em matéria
de vegetação. E pra quê o governo federal vai gastar dinheiro? Por que
ele não deixa o particular fazendo o novo plano? Porque é um monte de
comuna burro, que acha que só o governo… Não, esses putos querem, como
tem o negócio do ouro, do índio e dos diamantes, eles querem se
refestelar no roubo, na corrupção, na sacanagem. O Ibama, o INCRA e a
Funai. Estão criando terreiros para eles.
O senhor ataca todos os órgãos federais.
Não, eu ataco as pessoas, algumas pessoas desses órgãos federais. E
do Estado do Pará, esses idiotas do Iterpa que não fazem nada, só estão
comendo.
Como o senhor vê a questão indígena?
Nas minhas terras restam 120 e poucos, entre curuás, xipaias. O chefe
da tribo xipaia, que não tinha tribo nem porra nenhuma, Manuel Xipaia,
tem RG do Piauí. Ele nasceu na cidade. Fez grupo escolar na cidade onde
nasceu. E lá no Pará ele se pinta: “Manuel Xipaia, chefe da tribo. Levou
até alguns vagabundos de Altamira para lá, pôs lá, não tem nada a ver
com índio. Daí apareceu uma puta, só pode ser uma puta, de uma
antropóloga comunista, querendo tirar 300.000 hectares para oito, doze
pessoas. Quer dizer, é um absurdo você ser tapeado pelo Manuel Xipaia!
Se eles fizerem uma lei, eu não posso fazer nada. Eu vou ser
desapropriado, vou receber uma gaita e não posso fazer absolutamente
nada. Mas nas coxas? Porque tem que ter uma regra de antropologia, o
cemitério, não sei o que. Mas os caras não fazem nada disso.
E o que o senhor acha do programa Arpa (Áreas Protegidas da Amazônia) e como as ONGs atuam lá na sua região?
O projeto Arpa é capitaneado pela multinacional WWF, com dinheiro do Banco Mundial, da norte-americana Moore Foundation, do Banco de Cooperação da Amazônia e uma contrapartida do Ministério do Meio Ambiente. Ele pretende criar unidades de conservação na Amazônia. Para isso, desenvolve um lobby no Ministério do Meio Ambiente e no Ibama e conta com o aval de entidades como o ISA (Instituto Socioambiental da Amazônia) e outras ONGs nacionais menos conhecidas, que vivem da doação de recursos públicos. No fundo, eles querem fazer o governo brasileiro aceitar 240 milhões de dólares em doações, a serem feitas até 2012, sob a condição de criar as unidades, engessando 500.000 quilômetros quadrados da floresta amazônica e retirando da sociedade brasileira o direito de decidir qual a melhor forma de ocupar e explorar esse território, Os processos no Ibama para a criação dessas unidades de conservação não têm critérios técnicos, não levam em conta a realidade local, sem consultas públicas e debate amplo. Alguns técnicos e representantes de ONGs internacionais se reúnem lá em Brasília se debruçam sobre mapas e imagens de satélite e desenham as áreas a serem protegidas. Depois usam entidades como a Comissão Pastoral da Terra e associações de trabalhadores rurais como massa de manobra para tentar demonstrar que, para coibir a ocupação de terras públicas e atos de violência contra os moradores tradicionais, devem ser criadas unidades de conservação e reservas extrativistas. Mal sabem que áreas indígenas e florestas nacionais têm sido palco da devastação sob a falsa e tíbia proteção da Funai e do Ibama. São essas entidades que financiam e fomentam a criação e expansão de terras indígenas, que se unem às áreas de conservação, formando um imenso território contínuo. No futuro, com apoio internacional, terão condições de promover a autonomia desse território. Não sou contra reservas indígenas, áreas de conservação. Mas questiono os critérios empregados – irracionais e antinacionais. Recentemente, saiu na imprensa, o senhor Paschoal Lamy, presidente da Organização Mundial do Comércio, propôs a internacionalização da gestão dos recursos naturais que pertencem aos brasileiros, tratando o nosso território como bem público mundial. Agora, foi nomeado presidente do Banco Mundial o senhor Paul Wolfowitz, um dos falcões do presidente Bush e mentor da guerra do Iraque sob falsa alegação de que aquele país estaria desenvolvendo armas de destruição em massa. Wolfowitz será o responsável pela cobrança dos resultados dos programas que b Banco Mundial financia, e nosso governo, por ter se comprometido com o programa Arpa, estará sujeito à tutela internacional de nossos recursos naturais. Então, nós somos o ladrão de carteira..
E o que o senhor acha do programa Arpa (Áreas Protegidas da Amazônia) e como as ONGs atuam lá na sua região?
O projeto Arpa é capitaneado pela multinacional WWF, com dinheiro do Banco Mundial, da norte-americana Moore Foundation, do Banco de Cooperação da Amazônia e uma contrapartida do Ministério do Meio Ambiente. Ele pretende criar unidades de conservação na Amazônia. Para isso, desenvolve um lobby no Ministério do Meio Ambiente e no Ibama e conta com o aval de entidades como o ISA (Instituto Socioambiental da Amazônia) e outras ONGs nacionais menos conhecidas, que vivem da doação de recursos públicos. No fundo, eles querem fazer o governo brasileiro aceitar 240 milhões de dólares em doações, a serem feitas até 2012, sob a condição de criar as unidades, engessando 500.000 quilômetros quadrados da floresta amazônica e retirando da sociedade brasileira o direito de decidir qual a melhor forma de ocupar e explorar esse território, Os processos no Ibama para a criação dessas unidades de conservação não têm critérios técnicos, não levam em conta a realidade local, sem consultas públicas e debate amplo. Alguns técnicos e representantes de ONGs internacionais se reúnem lá em Brasília se debruçam sobre mapas e imagens de satélite e desenham as áreas a serem protegidas. Depois usam entidades como a Comissão Pastoral da Terra e associações de trabalhadores rurais como massa de manobra para tentar demonstrar que, para coibir a ocupação de terras públicas e atos de violência contra os moradores tradicionais, devem ser criadas unidades de conservação e reservas extrativistas. Mal sabem que áreas indígenas e florestas nacionais têm sido palco da devastação sob a falsa e tíbia proteção da Funai e do Ibama. São essas entidades que financiam e fomentam a criação e expansão de terras indígenas, que se unem às áreas de conservação, formando um imenso território contínuo. No futuro, com apoio internacional, terão condições de promover a autonomia desse território. Não sou contra reservas indígenas, áreas de conservação. Mas questiono os critérios empregados – irracionais e antinacionais. Recentemente, saiu na imprensa, o senhor Paschoal Lamy, presidente da Organização Mundial do Comércio, propôs a internacionalização da gestão dos recursos naturais que pertencem aos brasileiros, tratando o nosso território como bem público mundial. Agora, foi nomeado presidente do Banco Mundial o senhor Paul Wolfowitz, um dos falcões do presidente Bush e mentor da guerra do Iraque sob falsa alegação de que aquele país estaria desenvolvendo armas de destruição em massa. Wolfowitz será o responsável pela cobrança dos resultados dos programas que b Banco Mundial financia, e nosso governo, por ter se comprometido com o programa Arpa, estará sujeito à tutela internacional de nossos recursos naturais. Então, nós somos o ladrão de carteira..
O senhor?
Eu não, essas merdas dessas ONGs brasileiras. São ladrões de
carteira, punguistas, como é?, trombadinhas. Essas ONGs são
trombadinhas. Essas que deram a madeira. Tiraram um dinheirinho, 150.000
dólares para o Tarcísio comprar uma caminhonete bonita. Fizeram tudo,
menos proteger o menos favorecido. O menos favorecido são eles mesmos.
Essas ONGs, ONG da água! Isso aí é tudo negócio e têm vergonha de falaz
Aqui no Paraná quiseram me fazer de vítima de uma ONG de um chileno
vagabundo – acho que é da Amigos da Água, coisa assim – junto com um
advogado polonês, um puto, vagabundo, Antonieck, coisa assim. Por que
uma ONG querendo entrar na minha propriedade, que é um negócio lindo pra
caralho, com portão, com guarda, não entra. “Eu sou da ONG.” Não entra,
dá o fora, não deixamos entrar vagabundo aqui na propriedade, dá o
fora! Esse pedaço meu é pequeno. Tem 1.000 metros por 800 e pouco num
parque estadual, que faz parte de um parque nacional na Mata Atlântica. E
isso foi o governador Álvaro Dias, ele fez isso. A Mata Atlântica no
Paraná é altamente conservada. Mas o meu lote estava fora porque tinha
sido serraria naquele local, há 120 anos atrás, e depois foi para criar
boi. E eu comprei da família. E esses palhaços não entendem nada de
nada. Do outro lado do rio, mais para a frente, tinha umas casas que em
1920 tinham sido construídas e hoje estão num bagaço. Eu entrei na
prefeitura para restaurar as casas, fiz um negócio lindo numa das casas,
a do meu encarregado, com madeira de pinho-de-riga, e esses palhaços
queriam que eu desmanchasse a casa. Mas caíram na cagada de querer
explorar 160 proprietários pobres, caras que têm seu lugarzinho lá com
três mesinhas pra comer seu churrasco. Na hora que eu vi que estava com
mais 159 palhaços, eu disse, porra, quero ser o último a desmanchar a
casa lá. Acabou-se. Porque eles quiseram roubar demais. Pensei: ficar na
mão de gente assim? Eu ia mandar queimar a casa desse filho da puta.
Desse, eu ia mandar queimar a casa, do chileno.
Mas o senhor ia mandar queimar…
Sem gente dentro. Lógico, porra, que que há?
Pela ação deles,a sua reação seria essa?
Minha reação seria essa. Eu fiz chegar no ouvido dele. Que ele se
cuidasse. Porque eu não ia engolir merda nenhuma de um chileno filho da
puta e podre como ele. O nome dele eu não lembro. É Amigos da Água, aqui
do Paraná. Então,
a forma de reagir é essa.
a forma de reagir é essa.
Estamos no fim… Mais duas perguntinhas. Analise o governo Lula.
Eu só posso analisar da seguinte maneira. Minha mulher votou no Lula e
eu também. Interessante foi o seguinte. Eu votei aqui no Paraná, ela
foi para São Paulo, votou no Lula, tomou um avião para os Estados
Unidos. A filha dela estava estudando lá. Ela tem 52 anos. Infelizmente
não tenho nenhum filho com ela, devia ter, o filho nós perdemos, eu
queria, tenho certeza que seria formidável ter um filho com ela. Bem, eu
vim para casa, estava em casa e pedi para botarem frutas, queijinho,
bolacha, pus assim no lado da minha cama. E 5 e pouco da tarde ia
aparecer o Lula, ele já ganhou, eu quero ver esse homem, conhecer a alma
desse homem. Gravei tudo em videocassete. E notei uma coisa
interessantíssima, a de que ele era um companheiro fora do comum. Que
ele tinha uma vontade doentia de fazer bem para o Brasil. Que ele falava
como coração. Que ele respeitava a mulher dele. Você já notou como ele
respeita aquela mulher? Não que ela mande nele, não. É o respeito do
macho, que ela é agradável, mãe dos filhos dele. Fez promessas, achei
meio difícil ele cumprir tudo aquilo que ele disse que ia fazer. Mas só
esse milagre de ele levantar nossas exportações de 63 bilhões de dólares
para 118 bilhões!
Agora, tem erros incomensuráveis por causa dessa merda desse partido
dele. A Marina Silva foi uma péssima escolha. Pegou uma indiazinha
totalmente analfabeta e doente. E essa merda de governador que perdeu o
governo do Rio Grande do Sul, um bicha, que é veado, o Olívio Dutra. Tem
coisa mais ridícula do que aquele José Graziano, um que era da Fome, um
barbudinho, nervoso, perdeu até o cheque que aquela nossa modelo deu
para ele, de 50.000 reais, Gisele Bündchen.
Pôr o Rosseto no Incra? Um comuna! Na Embrapa também cometeu esse
erro. A Embrapa é um organismo fantástico, que atravessou governos. Ele
mudou regras para botar uns caras do PT.
E os acertos, além das exportações?
Economia grau dez. Agricultura grau dez. Porque o que ele tem protegido o agrobusiness
no Brasil é uma coisa fantástica. Graças a isso, o Brasil está
exportando o que está exportando. Criação de empregos por causa do tipo
da política do Ministério da Fazenda, comandado com mão de ferro pelo
Palocci. Veja o progresso que nós estamos tendo. Milhões de empregos que
o Lula já criou, e todo mundo debochava do Lula. Milhões de carteiras
assinadas. A indústria crescendo, a exportação de automóveis no Paraná,
em São Paulo, só não cresceu no Rio Grande do Sul porque esse animal
bigodudo do Olívio Dutra não permitiu, que é o maior crime que se podia
fazer contra o povo do Rio Grande do Sul.
Para terminar, o senhor já apareceu entre os cem homens mais
ricos do planeta, segundo a revista Porões. Como o senhor vê a pobreza
no país?
Eu vou fazer a pergunta ao contrário: você quer que eu divida o meu?
Cria algum constrangimento a sua riqueza diante de tanta pobreza?
Nenhum. Nenhum. Zero. Eu só não passei fome. Vivi na merda total anos
e anos. Trabalhava das 6 da tarde à 1 da madrugada. Estudava com
atestado de pobreza. Não tinha roupa boa para sair. E não precisei
invadir nada nem chorar pitanga pra ninguém. Lutei para conseguir o que
consegui. Claro que sou um favorecido de Deus por ter esse tamanho, a
força que tenho, sou eugenicamente são graças aos meus pais. Não tenho
pena nenhuma. Nenhuma. É zero a pena que eu tenho. Agora, se um homem
entra no meu trabalho e for vesgo, eu mando consertar” seus olhos. Se
tiver lábio leporino, eu mando arrumar. Se tiver o nariz arrebentado, eu
mando restaurar o nariz no melhor restaurador de nariz que tenha. Seja
quem for, do primeiro ao último escalão. O operário que trabalhou na
minha casa aqui em Curitiba, que quebraram o nariz dele, fala português
errado, vai ser nomeado chefe lá de Morretes para morar nessa casa linda
que eu te falei. Ele estava cuidando dos cavalos. Então, todos têm a
oportunidade de crescer. Qualquer coisa que um filho da puta de um chefe
faça mal a um subordinado, eu ponho o chefe na rua. Agora, por que é
que eu vou ter dó de vagabundo na rua? Por que o filho da puta foi ter
seis filhos? Por que não fodeu de camisinha, com a tabela ou não gozou
fora? Que culpa eu tenho disso? Gerações de seis, oito filhos, vivendo
nessa merda que nós vivemos. De 1970 para cá aumentaram 90 milhões de
brasileiros, por causa dessa merda da Igreja Católica que eu faço parte.
Por que isso? Não se pode ter filhos à bangu, sem controle.
O senhor é pelo controle da natalidade?
É lógico. Planejamento familiar. Eu sei que passo por grosso. Eu penso assim. Não tenho o menor constrangimento. Zero. Nada.
João de Barros é jornalista
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