quinta-feira, 9 de abril de 2026

Bioeconomia da biodiversidade da Amazônia


Ao refletir sobre o futuro da Amazônia e das populações que nela vivem, lembro a frase do Papa Francisco: “faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que cresce”.

A bioeconomia da biodiversidade é essa floresta que precisa crescer em meio ao barulho das motosserras, da soja descendo os rios, do gado e do minério.

Antes de avançar, é preciso delimitar o conceito. A bioeconomia não é única. Há a biotecnológica, centrada na indústria; a de recursos naturais, baseada na exploração sustentável de biomassa; e a bioeconomia da biodiversidade, que gera valor sem destruir a floresta.

Para a Amazônia, o caminho mais consistente é a bioeconomia da sociobiodiversidade. Aqui, o centro é a floresta em pé, o conhecimento tradicional e o protagonismo das populações locais.

Esse modelo permite estruturar cadeias de maior valor agregado a partir da diversidade biológica e cultural, tratando a floresta como um sistema vivo que sustenta economia, cultura e clima.

O problema é que o modelo dominante seguiu na direção oposta. Baseado em commodities agrícolas e minerais, orientado por mercados externos, ele gerou desmatamento, perda de biodiversidade, contaminação de rios, emissões de carbono e degradação social.

Observa-se concentração fundiária, pressão sobre povos indígenas, conflitos por terra e economias locais frágeis. O resultado foi riqueza concentrada e destruição de capital natural.

A Amazônia só terá futuro se migrar para um paradigma baseado na bioeconomia da sociobiodiversidade.

Nesse contexto, uma Política Nacional de Bioeconomia pode estruturar uma estratégia de neoindustrialização com base territorial na Amazônia. A diretriz deve ser clara: transformar biodiversidade em base industrial de alto valor agregado, com processamento local, soberania tecnológica e emprego qualificado.

Isso exige coordenação institucional: MDIC na estratégia, BNDES no financiamento, SUDAM no planejamento e MCTI/FINEP na base científica.

Os eixos são conhecidos: biofármacos, cosméticos vegetais, alimentos processados, biotecnologia, turismo sustentável e insumos biológicos.

Mas há شرط: processamento local, propriedade intelectual no Brasil, repartição de benefícios com comunidades e rigor ambiental.

Sem deslocar o centro econômico das commodities para cadeias bioindustriais, a Amazônia seguirá vulnerável.

A escolha é civilizatória. Manter o modelo atual é aceitar a floresta como fronteira de extração. A bioeconomia aponta outro caminho: reconciliar economia, justiça social e equilíbrio ecológico.

A Amazônia não precisa escolher entre floresta e prosperidade. Prosperidade duradoura só existirá com a floresta em pé.

José Carlos Lima – Advogado e ambientalista

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