sábado, 10 de outubro de 2026

Investigado por diversos crimes, Flávio Bolsonaro leva Brasil ao precipício autocrático

 


Via site JOTA por Warley Brant Pimentel

Retorno da família ao poder simboliza erosão de valores da República, que tende a adquirir características fascistas. Após terminar o primeiro turno das eleições presidenciais na frente, com 47,03% dos votos válidos, Flávio Bolsonaro (PL) destaca-se como o favorito para subir a rampa do Palácio do Planalto em 5 de janeiro próximo. A alta porcentagem de votos obtida pelo parlamentar demonstra que o componente ideológico, impulsionado pelo alto nível de polarização na política brasileira, corroeu o senso ético público e ultrapassou os princípios da moral republicana, caracterizada pela preocupação com o "bem comum". Talvez uma maior explicação da sentença acima se faz necessária: desde a Roma Antiga e, com maior ênfase, desde os humanistas italianos nos séculos 14 e 15, a ideia de República se fundamenta a partir da elevação da preocupação com aquilo que é público, portanto, “comum a todos”, em detrimento dos interesses particulares. Nada mais contraditório com o histórico de Flávio Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros crimes relacionados ao caso Dark Horse, filme baseado na história de seu pai, o golpista Jair, e financiado pelo ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro. A moral republicana também estaria em desacordo com outra característica dos Bolsonaro: a lógica de clã, que usa da política como meio de vida e cabedal para seus interesses familiares, elegendo sistematicamente parentes que parecem não possuir qualquer know how político e tampouco se interessam pela “coisa pública”.

Nesse sentido, a atuação política da famiglia é capaz de nos fazer duvidar de outro conservador: o ilustre espanhol José Ortega y Gasset, que em seu clássico livro A rebelião das massas afirmava que a democracia liberal conservava algo da aristocracia em sua essência, pois tinha a capacidade de selecionar os melhores. O livro de Ortega y Gasset foi publicado em 1930 e, naquela época, o filósofo criticava a massificação da política observada a partir da ascensão do comunismo e do fascismo. Uma leitura válida para os dias atuais, nos quais estamos cada vez mais próximos de nos tornar uma autocracia.

Nos últimos anos, o livro Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, tornou-se bastante conhecido, em decorrência do que vem ocorrendo no mundo e no Brasil. Seria, portanto, infrutífero entrar em detalhes aqui. Em linhas gerais, os autores demonstram como as democracias vêm sendo corroídas por dentro, a partir da iniciativa de políticos autoritários e da incapacidade das instituições em sustentar o “sistema de freios e contrapesos” (checks and balances). Não obstante o conhecimento público das teses de Levitsky e Ziblatt, elas foram mais evocadas na imprensa durante as eleições de 2022 do que vêm sendo atualmente, o que me parece ser um sinal bastante negativo de que, de alguma maneira, estamos normalizando a atuação da extrema direita no cenário político.

A conjuntura torna-se ainda mais séria se pensarmos que a imprensa atua como um componente fiscalizador neste sistema de freios e contrapesos. No que pese o fato de que a atuação de membros do próprio Supremo Tribunal Federal (STF) também vem comprometendo o funcionamento republicano, não seria com cicuta que se curaria o enfermo.

Ainda assim, dado que Jair Bolsonaro, apesar de muito tentar, não corroeu o sistema, ficaria a dúvida de por que Flávio seria bem-sucedido? A resposta estaria, primeiro, na composição do Legislativo: a partir de 2027, o Partido Liberal terá 28 das 81 cadeiras do Senado e 121 das 513 cadeiras na Câmara. No total, o Senado terá 49 cadeiras no campo da direita, enquanto a Câmara, 283, o que facilitará a aprovação de medidas como impeachment de ministros do STF e emendas constitucionais.

De fato, na última terça-feira (6/10), Flávio Bolsonaro falou em usar a maioria no Congresso para “mudar a Constituição” e “redemocratizar o país”. É preciso considerar que o discurso político muitas vezes se instala a partir de uma separação entre o “significado”, ou seja, o sentido literal das palavras, e seu “sentido”, o que elas verdadeiramente querem dizer em seu contexto de enunciação. Enquanto “mudar a Constituição” parece ser literal, “redemocratizar o país” parece mais próximo de um processo de fascistização. Finalmente, faço um alerta para a banalização dos conceitos, mas pondero que classificar a atuação dos Bolsonaro no espectro do fascismo não é um exagero retórico: tanto o pai quanto o filho correspondem a quase todas as características dessa tendência política elencadas pelo especialista Robert Paxton em seu livro A anatomia do fascismo.

A diferença é que, embora Jair tenha chegado ao governo, não teve poder o suficiente para conduzir a nação ao último estágio do fascismo: a construção de um Estado moldado à imagem e semelhança desse regime político. Caso seja eleito presidente, Flávio terá em mãos poder suficiente para isso.

Se os conceitos não parecem claros, caso a República se corrompa em autocracia, as palavras serão certamente insuficientes. Paradoxalmente, em sistemas autoritários muitas vezes é o silêncio que fala mais alto. E estamos perto de ouvi-lo como nunca antes neste país

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