Entrevista com o CEO – “Meu papel é o de ser líder empreendedor”
Head do Facebook, que congrega 67 milhões de usuários no País, ALEXANDRE HOHAGEN passou por vários setores da economia e teve atos ousados ao longo da carreira
Cláudio Marques Estadão
Juntamente com o esforço, a dedicação e o talento, a carreira do
líder do Facebook no Brasil e na América Latina, Alexandre Hohagen, de
44 anos, também teve lances de ousadia e surpresa. Jornalista formado
pela ECA-USP, ele começou a trajetória profissional como responsável
pelo setor de comunicação da Dow Química. Posteriormente, se candidatou a
uma vaga de gerente de comunicação do laboratório Boehringer Ingelheim.
Não foi escolhido, mas durante o processo veio o inesperado: o então
presidente da companhia o convidou para uma experiência em recursos
humanos. Era, até então, uma possibilidade totalmente impensada por
Hohagen. Mas ele achou que poderia aprender com a nova atividade e
aceitou. Outro passo ousado ocorreu quando era diretor de recursos
humanos de um site que procurava uma pessoa para a área de vendas. Ele
se candidatou ao posto, foi aceito e, mais uma vez, deu um novo rumo
para sua carreira. Passou depois pela HBO, em seguida ficou seis anos no
Google e está há dois no Facebook. “Eu logo entendi que quanto mais
eclético eu fosse na minha formação, em quanto mais áreas eu pudesse
passar, mais chances eu teria de crescer profissionalmente”, conta.
Hoje, ele se considera um líder empreendedor, que não se recusa a pôr a
mão na massa. A seguir, trechos da entrevista.
Você começou na Dow Química, depois foi para uma farmacêutica, passou por banco, pela HBO e foi para o setor de tecnologia. Como se deu esse trajeto?
Acho que foi uma combinação de planejamento com oportunidades de
carreira. Quando estamos no início da carreira, é difícil ter uma noção
tão clara do que se quer e fazer um planejamento tão claro de longo
prazo. Mas logo no início entendi que quanto mais diversidade, quanto
mais eclético eu fosse na minha formação, quanto mais áreas eu pudesse
passar, mais chances eu teria de crescer profissionalmente. Eu fiz
muitas mudanças, não só de companhias e de setores muito diferentes – às
vezes, surpreende quando falo que trabalhei na Dow Química e hoje estou
comandando o Facebook, são coisas tão antagônicas, tão diferentes, são
modelos distantes. Sou jornalista de formação, sou publicitário,
trabalhei com comunicação, com marketing, depois cheguei a vendas e,
posteriormente, fui para gestão. Mas sempre tive muita consciência de
que a combinação de uma carreira eclética em vários setores com
diferentes experiências profissionais poderiam me fazer um profissional
melhor e me dar melhores oportunidades de carreira.
Então, você começou na área de comunicação?
Sim, sou jornalista (também é pós-graduado em administração pela FEA-SP,
IMD, na Suíça, e pelo IIHR, na Holanda). Eu cuidei da área de
comunicação e de relações públicas da Dow Química.
Continuou nessa área quando foi para o laboratório?
Na farmacêutica foi um processo interessante. Eu fui convidado por uma
grande empresa de head hunter a participar de um processo para ser
gerente de comunicação dessa empresa, a Boehringer. Ao longo do
processo, a companhia achou que eu não era a pessoa mais indicada para a
função – contrataram uma pessoa com muito mais experiência, eu era bem
jovem. Mas o presidente da empresa, por alguma razão, foi com a minha
cara, achou que eu falava um bom inglês e um bom espanhol, e perguntou
se eu não queria ir para a empresa trabalhar em recursos humanos. Era
uma coisa que eu nunca tinha imaginado! Pensei que gestão de pessoas,
recursos humanos, poderia ser importante para minha carreira no futuro e
resolvi aceitar. E fiz essa mudança radical de comunicação para
recursos humanos, mas por acaso.
Pelo jeito, ele, o presidente, estava certo.
Sem dúvida, ele estava certo de ter essa visão para me levar a fazer uma
coisa tão diferente. Acho que conhecer a área de recursos humanos me
trouxe muitos benefícios. O fato de eu saber gestão de pessoas, o fato
de eu saber como gerenciar times, como motivá-los, no final das contas,
aportou muito valor para aquilo que vim desenvolver mais para a frente,
na HBO, no Google, no Facebook.
Ele soube perceber que você tinha algo a ver com a área.
É. Penso que é relativamente fácil identificar quem tem potencial para
fazer coisas diferentes quando essa pessoa está no início da carreira.
E, no final das contas, para mim, para minha carreira, foi uma
experiência fantástica, aprendi coisas que eu uso muito até hoje. Quando
você gerencia grandes companhias, grande parte do seu trabalho é
justamente a gestão de pessoas, a motivação, a inspiração. E acho que
essa formação em RH me ajudou muito nisso.
Você foi agregando conhecimentos a sua carreira. O que mais você agregou passando, por exemplo, pela HBO?
Na verdade, eu fui para o UOL antes. Quando eu fui para a HBO eu já
tinha passado por uma experiência de vendas. Essa experiência começou no
UOL. Quando eu ainda era diretor de recursos humanos estava buscando
uma pessoa para vendas. Nós procuramos, conversei com candidatos no
mercado, mas num determinado momento eu pensei: ‘Puxa, essa pode ser uma
boa oportunidade para eu também ter uma visão diferenciada, trabalhar
mais na linha de frente, trabalhar com vendas’. Cheguei para o
presidente da companhia na época e falei que tinha um candidato para
apresentar, disse que o cara era bom. Quando ele me perguntou quem era,
eu disse: ‘Eu quero essa oportunidade, eu quero tentar’. Então, eu usei
um pouco da minha agressividade, da minha proatividade, para poder
conhecer essa área diferente. E conheci.
Foi uma atitude ousada.
É, a característica do empreendedor é justamente ter ousadia, de não ter
medo de tentar coisas diferentes. Se olharmos um pouquinho a história
mais recentemente na minha carreira, ela tem muito a ver com isso, de
montar empresa, de fazer coisas diferentes, contratar gente do mercado,
poder trazer novos modelos de negócios para a região, para a América
Latina. Então, eu acho que foi muito interessante esta formação
multidisciplinar lá atrás, para me ajudar nas características mais
recentes, daí usando um pouco de exemplo, o que fazemos aqui no
Facebook.
E o que você faz no Facebook?
Eu estou liderando a empresa na América Latina. Eu iniciei a empresa
aqui no Brasil. Então, meu papel é bem mesmo o de líder empreendedor,
que contrata pessoas, pesquisa e determina quais são os processos mais
viáveis para a empresa, discute seu crescimento com os Estados Unidos,
educa o mercado, inspira as pessoas que estão aqui (os colaboradores).
Hoje, o meu papel é esse. Eu iniciei o Facebook, depois de ter saído do
Google após quase seis anos. E comecei trabalhando de casa, ligando para
candidatos, falando com clientes, marcando reuniões. Agora, já estamos
estabelecidos, temos uma estrutura grande, estamos preparados para
crescer, já temos quase 50 pessoas no escritório do Brasil e quatro
operações na América Latina. Ao longo desses dois anos houve essa
atitude de ser o líder empreendedor.
O que isso significa?
Liderar e empreender ao mesmo tempo. Significa não ter problemas de
arregaçar as mangas apesar da responsabilidade, não ter problema de ir
comprar uma geladeirinha para trazer para o escritório, ou trabalhar de
casa, ou passar o dia ligando para candidato, contratar gente, rever
currículo.
Pesa mais comandar uma empresa como o Facebook, que é mais exposta, está sempre nos meios de comunicação, é sempre notícia?
Quando se lidera uma empresa que tem um impacto tão grande na sociedade,
não tenha dúvida de que se fica muito mais exposto, que se tem muito
mais responsabilidades. Há dois anos, quando eu entrei e trabalhava de
casa para abrir a empresa no Brasil, nós tínhamos mais ou menos 12
milhões de usuários. Hoje, temos 67 milhões. O escopo do trabalho, a
responsabilidade, aumentaram É um fator inerente ao crescimento da
relevância da empresa no Brasil. Então, a cobrança é natural,
principalmente pelo tamanho que a empresa tem.
Mas impressão é de que a cobrança é muito maior, não apenas em relação ao cliente, mas também da matriz.
Eu acho que hoje todo executivo é muito cobrado. Não acho que seja uma
característica específica do Facebook. Qualquer líder de empresa que
passe por esse crescimento que tivemos vai ser muito cobrado, porque,
por um lado, há o crescimento muito acelerado e, por outro, ele também
tem de devolver resultado, tem de criar a estrutura para poder suportar
esse crescimento. Eu acho interessante não só esse trabalho de ser líder
empreendedor, de construir, de acompanhar o crescimento, é também
preservar um pouco essa cultura de start up.
Vocês têm essa cultura?
Nós temos essa cultura de start up muito forte. Então, por isso eu acho
que no fundo nós tentamos minimizar um pouquinho essa pressão pelo
resultado mantendo um ambiente de trabalho bastante saudável. Eu lido
com um público (interno) bastante jovem, vários não tiveram ainda muitas
experiências profissionais. Então, para aliar esse crescimento
acelerado com o público mais jovem, é preciso ser um líder inspirador,
tem de mostrar o caminho para o pessoal, trabalhar junto, arregaçar as
mangas, trabalhar até tarde. Eu penso que essa cobrança vai ser inerente
a qualquer empresa que tenha um crescimento como o que obtivemos. Não
acredito que seja uma coisa só do Facebook.
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