domingo, 19 de março de 2023

Funcionário que montou os primeiros Fuscas do Brasil viu JK e foi demitido por denunciar caso de corrupção

 

Fotos: Fritz e  o repórter    Marcos Rozen, na Fábrica com JK, e o primeiro galpão da Volkswagen no Brasil 

Via Auto Esporte por  Marcos Rozen

Conheça a história de Fritz, o primeiro brasileiro registrado como funcionário da Volkswagen do Brasil

A história da indústria automobilística brasileira tem poucos nomes conhecidos — como Comandante Lúcio Meira, Wolfgang Sauer e André Beer — e outras centenas, até milhares, de anônimos. Personagens que foram importantes, cada um a seu tempo, em suas passagens por várias empresas e fábricas, mas que acabaram caindo no ocaso por um sem número de razões.

Um representante especial desse enorme segundo grupo é um personagem não exatamente anônimo: seu nome era Marcílio da Cruz Lopes, mas todos o conheciam pelo apelido de Fritz. Era uma alcunha irônica, já que se tratava de um homem negro de pele bem escura — e Fritz é um nome comum para homens alemães, geralmente de pele muito clara.

Mas a razão para o apelido não era apenas essa. Quando era pequeno, Fritz foi adotado pelo casal Noack, imigrantes alemães de Joinville, Santa Catarina, que lhe ensinaram seu idioma natal. Ou seja: Fritz era um brasileiro negro que falava alemão tão bem quanto o português. Com o tempo Fritz e Schultz--Wenk cultivaram uma relação de confiança e até amizade: Fritz passou a chamar o presidente da empresa, carinhosamente, de Frederico. O ápice foi quando o presidente mundial da Volkswagen, Heinrich Nordhoff, veio ao Brasil para inaugurar a fábrica da Anchieta, em 1959, e Fritz foi destacado por Schultz-Wenk para atuar como uma espécie de babá dos familiares do executivo que o acompanharam na viagem.


E Fritz, do alto de sua simplicidade, ainda conseguiu marcar presença na histórica fotografia em que estão os dois executivos acompanhados do presidente Juscelino Kubitschek desfilando em um Fusca conversível dentro da fábrica — imagem simbólica do começo da indústria nacional de carros. Na Anchieta Fritz tinha acesso livre à presidência, o que começou a incomodar muita gente. Ainda mais quando ele denunciou um caso de roubo de peças, que saíam escondidas em Fuscas enviados às concessionárias. A lista de inimigos de Fritz começou a crescer em vários níveis hierárquicos e, com a morte precoce de Schultz-Wenk, em 1969, logo uma desculpa qualquer foi utilizada para demiti-lo.

Dali para a frente, a vida de Fritz despinguelou ladeira abaixo. Na pior fase, ele chegou ao ponto de se ver obrigado a morar na rua, na periferia de São Paulo. Fritz morreu há cerca de uma década, triste pelo abandono e por jamais ter recebido nenhum reconhecimento ou apoio por parte da VW em seus momentos mais difíceis. Quase por um acaso, um conhecido em comum permitiu que eu encontrasse Marcílio e conhecesse sua história.

Hoje, Schultz-Wenk é nome de rua em São Bernardo do Campo. Fritz, ou Marcílio da Cruz Lopes, não. Ele bem que merecia batizar, ao menos, uma grande avenida — que então representaria uma grande homenagem a todos os heróis anônimos da nossa indústria.

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