Via site Jota por Daisy Souza
Apesar de conquistas históricas, dados recentes revelam persistência da brutalidade e necessidade de novas estratégias. Enquanto o mundo se mobiliza nos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, com marchas, palestras e eventos globais, o Brasil se depara com um espelho que reflete não apenas estatísticas, mas uma barbárie cotidiana. A tinta da nossa Constituição mal secou e o sangue das mulheres continua a escorrer pelas páginas da história recente. Não é possível iniciar qualquer debate sobre direitos humanos sem antes encarar a brutalidade que estampou os jornais nas últimas semanas. Em São Paulo, a desumanização atingiu um alto nível quando uma mulher foi arrastada por um carro na Marginal, reduzida a um objeto na via pública (CNN Brasil, 2025). No Distrito Federal, o fogo que consumiu um quartel foi o mesmo que apagou a vida de uma mulher, vítima de feminicídio confesso pelas mãos de um agente do Estado (Agência Brasil, 2025).
E, no ambiente acadêmico, que deveria ser um refúgio de saber, o assassinato de uma liderança no Centro Federal de Educação Tecnológica CEFET/RJ (CUT, 2025) escancarou que nenhum espaço está imune ao ódio de gênero. Esses casos não são tragédias isoladas; são a ponta do iceberg. O Atlas da Violência 2025 nos mostra que a violência tem cor e gênero: em 2023, o Brasil registrou 3.903 homicídios de mulheres. Quando somamos os homicídios ocultos, aquelas mortes que o Estado falha a classificar, a estimativa salta para 4.492 vidas ceifadas em um único ano (Cerqueira; Bueno, 2025).
Diante deste cenário de guerra não declarada, minha participação no 4º Seminário de Direitos Humanos na Gestão Pública, promovido pela Rede Equidade e pelo Senado Federal, não foi apenas um ato acadêmico, mas um exercício de resgate histórico. O evento, com o tema "As Mulheres e a Redemocratização do Brasil: Um Legado de Coragem e Resistência", nos obriga a olhar para trás para entender que a nossa sobrevivência hoje é fruto da audácia de mulheres que enfrentaram tanques e torturas.
Foi um momento de conhecer grandes mulheres, como Therezinha e Eugênia Zerbini, Ana Dias, Amelinha Teles, Edna Roland e Diva Moreira. Essas mulheres, muitas vezes invisibilizadas pela narrativa oficial, transformaram o luto em luta durante a ditadura. Movimentos como o Feminino pela Anistia e a luta contra a carestia não pediam apenas o retorno da democracia formal; exigiam o direito de existir com dignidade.
Contudo, a democracia que conquistamos ainda carrega as marcas da exclusão. Na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, Benedita da Silva era a única mulher negra presente (Senado Federal, 2018). Sua solidão naquele plenário denunciava o que Angela Davis, Patricia Hill Collins e Silvia Federici apontam na obra Democracia para quem? "uma democracia que exclui mulheres negras não tem nada de democrática" (Davis; Collins; Federici, 2023, p. 29). A presença de Benedita foi fundamental para inscrever direitos na Constituição, mas a materialização desses direitos segue como uma batalha diária. A violência que nos atinge é democrática na sua disseminação, mas seletiva na sua letalidade. O Atlas da Violência é categórico: o risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é 1,7 vezes maior do que o de uma mulher não negra (Cerqueira; Bueno, 2025). A mulher negra, a indígena e a quilombola estão na base dessa pirâmide de vulnerabilidade, enfrentando não apenas o sexismo, mas o racismo estrutural que naturaliza suas mortes.
Os principais desafios enfrentados pelas mulheres na atualidade, passam pela violência política e pela perseguição a lideranças comunitárias. O relatório Mulheres, Ativismo e Violência reforça que, para as ativistas de favelas e periferias, a ameaça é uma constante. Elas desafiam o poder armado e o poder paralelo, muitas vezes sem a proteção do Estado que deveria garantir a segurança. (Willadino et al., 2024).
Mas se a violência tenta nos calar, a arte nos devolve a voz. A dissertação Flores e a resistência feminina (Santos, 2025) nos apresenta o conceito de "artivismo" (Arte como ativismo). Ao documentar relatos de sobreviventes de feminicídio e violência doméstica em Maricá, a obra demonstra como a narrativa e a performance podem atuar como ferramentas de cura e denúncia. O filme não apenas registra a dor; ele a ressignifica, transformando o trauma individual em uma memória coletiva de resistência. Como aponta a pesquisa, "o artivismo feminista emerge como contranarrativa, buscando resgatar vozes femininas e questionar a objetificação de suas histórias" (Santos, 2025, p. 78). Saio deste seminário com a certeza de que a luta das mulheres na redemocratização não terminou; ela apenas mudou de fase. Hoje, lutamos não apenas contra um regime, mas contra uma cultura de extermínio. É preciso, portanto, reafirmar o compromisso inegociável com a nossa própria existência. Aproprio-me aqui da frase que ecoa como um mantra para todas nós que ocupamos espaços de poder e decisão: "Não vamos voltar para o gueto, nem para a cozinha, nem para a favela. Agora, eu tenho voz."
Essa voz é a garantia de que não seremos mais invisíveis. A sociedade brasileira já viu a força das mulheres; não há como desver. Não vamos nos calar, não vamos nos acomodar e jamais deixaremos de lutar. E para aquelas que sentem o peso do cansaço, lembrem-se da sabedoria ancestral das mulheres quilombolas: "quando uma mulher quilombola tomba, o quilombo se levanta junto com ela".

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