Por Marcos Wesley Pedroso
Em 4 de setembro de 2024, a comunidade Alvorada da Amazônia, em Novo Progresso, registrou uma média diária de 665 µg/m³ de material particulado fino, uma das principais substâncias tóxicas presentes na fumaça. A OMS recomenda que esse índice não ultrapasse 15 µg/m³.
No dia 4 de setembro de 2024, uma quarta-feira, a comunidade Alvorada da Amazônia, em Novo Progresso, no sudoeste do Pará, registrou a pior qualidade do ar do ano na Amazônia Legal na temporada do fogo de 2024. Na data, o material particulado fino, um conjunto de poluentes que compõe a fumaça tóxica atribuível às queimadas, atingiu 665 microgramas por metro cúbico (µg/m³), um valor 4.333% acima do limite de 15 µg/m³ considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Localizada às margens da rodovia federal BR-163, Alvorada da Amazônia fica a aproximadamente 33 km do centro urbano de Novo Progresso. O município foi o epicentro do “Dia do Fogo”, ação coordenada em agosto de 2019, quando fazendeiros atearam fogo na floresta ao redor da estrada. Além disso, o povoado faz divisa com o município de Altamira, umas das regiões mais desmatadas da Amazônia.
A localidade é uma área predominantemente rural, com forte presença da pecuária e da agricultura. A produção agrícola local inclui o cultivo de arroz, milho, feijão e café, que garantem a subsistência de grande parte da população.
Esta é a quinta reportagem da série “Invisíveis da fumaça”, uma parceria entre a InfoAmazonia e o Tapajós de Fato. A produção exclusiva investigou a poluição do ar atribuível às queimadas históricas que ocorreram entre julho e dezembro de 2024, em pequenos povoados e comunidades da Amazônia
Para analisar a poluição do ar em localidades amazônicas, como Alvorada da Amazônia, o especial utilizou dados globais de concentração de material particulado fino (PM2.5), que são minúsculas partículas, com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, que podem se espalhar pelo vento por milhares de quilômetros. A InfoAmazonia processou estimativas diárias do serviço de monitoramento da atmosfera Copernicus (CAMS), do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) para calcular a média de PM2.5 na Amazônia em 2024. Depois, identificou em qual região havia sido registrada o pior dia da temporada. Leia aqui a metodologia da análise.
Além da pior média diária de concentração de fumaça na temporada do fogo, Alvorada da Amazônia também teve índices de concentração de fumaça acima do preconizado pela OMS no meses de agosto (59.9 µg/m³), outubro (16.6 µg/m³) e novembro (19.2 µg/m³).
‘Era praticamente impossível enxergar’
A dificuldade para respirar e a baixa visibilidade estão entre as principais lembranças que a população local tem do período em que a região foi consumida pela fumaça. Naquela quarta-feira de setembro de 2024, a densa nuvem cinzenta cobriu tudo, conta Maria Auxiliadora, moradora de Alvorada da Amazônia.
“A fumaça estava muito intensa na cidade e no interior [em Alvorada]. O sol mal aparecia. A manhã parecia noite. Os veículos trafegavam com os faróis acesos, era praticamente impossível enxergar”, relata
Imagem registrada em Alvorada da Amazônia mostra que visibilidade foi quase nula devido à densa fumaça em setembro de 2024 Crédito: Arquivo pessoal de moradora da região
Maria Auxiliadora relata que a dificuldade de respirar e o cheiro intenso da fumaça deixaram as atividades cotidianas quase impossíveis. “A gente tinha dificuldade para tudo, até mesmo para sair na rua, porque o cheiro era forte. Fazia a gente tossir, ter dor de cabeça”, disse.
Gilberto Pereira da Silva, presidente da Associação Trabalhador e Trabalhadora da Agricultura Familiar de Alvorada da Amazônia, descreveu que a temporada de fumaça na região foi marcada por episódios em que tudo ficou escuro.
“Tinha vezes que ficava tudo escuro de tanta fumaça. A região secou tanto que não choveu, que foi um fogaréu”, relembrou.
O comércio local, formado por pequenos estabelecimentos que atendem às necessidades cotidianas dos moradores, também sentiu os reflexos, não só no dia 4 de setembro, mas nos outros dias de intensa fumaça.
Em conversa com o Tapajós de Fato, um comerciante contou que, devido à baixa visibilidade e ao medo de acidentes, as pessoas evitavam sair de casa. Quando decidiram ir às ruas, redobraram a atenção.
“Não dava para ver nada na nossa frente. As pessoas tinham medo de andar pela rua e ser atingidas por um carro. Porque, mesmo com o farol acesso, muitas vezes era impossível a gente conseguir ver se vinha alguma coisa na nossa direção. Então, isso fez com que, nesses tempos, a gente vendesse bem menos do que no normal”, disse ele sob a condição de anonimato
Alvorada da Amazônia está em um município marcado por disputas fundiárias, grandes projetos de infraestrutura e a atuação de grupos que defendem a exploração ambiental, como garimpos de ouro e de madeira
Esse contexto de pressão política e interesses econômicos muitas vezes divergentes da população local gera um cenário de medo e desconfiança, o que leva muitos moradores a evitarem se manifestar publicamente sobre questões locais, como o alto índice de fumaça em 2024. Por isso, o comerciante pediu para não ser identificado na reportagem
Moradores acrescentam ainda que, à época, faltavam orientações do poder público sobre como agir diante de tanta concentração de fumaça. Como em 2019 Novo Progresso se tornou o epicentro do fogo, em 2024, a população de Alvorada teve receio que as queimadas avançassem ainda mais
“A gente ligou para o pessoal da prefeitura, mas não tinha retorno, nem notícia sobre o que fazer. Enquanto isso, padecia por todo lado. A gente sabia que onde tem fumaça, tem fogo. Se esse fogo chegasse mais perto de nós?”, questionou uma moradora, que também conversou com a reportagem sem se identificar.
Quando a poluição atmosférica da poluição por fumaça atinge o nível do registrado em Alvorada da Amazônica, significa que o ar respirado pela população está num nível muito salubre, explica a pesquisadora Sonaira Silva, do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGAMA), da Universidade Federal do Acre (Ufac). A especialista foi consultora científica para esta reportagem e estuda a dinâmica do fogo e da fumaça, além de integrar a Academia Brasileira de Ciências (ABC).
“É muito perigoso esse nível 44 vezes [4.333%] acima da recomendação da OMS, porque ele, com certeza, é altamente insalubre, além de diminuir a visibilidade. É aquele cenário em que, às vezes, a gente não consegue enxergar até a esquina, que começa a ter problemas de saúde de forma geral, alergia, voz, problemas respiratórios graves. Quando se tem esses níveis alarmantes, qualquer pessoa pode ter problemas de saúde, não apenas aquelas com comorbidades”, destacou.
O médico Karlisson Cunha, especialista em Saúde da Família pela Universidade Federal do Pará (UFPA), acompanhou de perto os casos relacionados à fumaça na região oeste do Pará e atuou em Unidades Básicas de Saúde em Novo Progresso durante a temporada de queimadas. Ele alerta que a exposição contínua ao material particulado pode causar danos à saúde comparáveis aos do cigarro.
“Esses efeitos da poluição podem até ser comparados ao ato de fumar cigarro. Porque, assim como o cigarro, a inalação de substâncias tóxicas prejudica os pulmões e aumenta o risco de infecções crônicas”, afirmou o médico.
Além dos efeitos imediatos, como tosse e dificuldade para respirar, a exposição à poluição pode causar danos a longo prazo, levando a uma diminuição da função pulmonar.
“Agora, a longo prazo, você vai ter um fenômeno que é chamado de diminuição da função pulmonar, o que vai aumentar o risco de doenças respiratórias, como bronquite crônica e até câncer de pulmão”, alertou Cunha.
O médico afirma que o ideal é evitar a exposição direta em dias com intensa poluição por fumaça, caso seja possível.
“Precisa afastar as crianças de ruas, limitar a atividade física ao ar livre em locais que tenham muita poluição. O ideal também é o ambiente mais limpo, mantendo as janelas fechadas, quando principalmente a qualidade do ar estiver muito ruim”, indicou.
Fumaça deixa clima ainda mais quente
Além da baixa visibilidade e reflexos na saúde, as altas concentrações de fumaça em um único dia, como os 665 µg/m³ registrados em 4 de setembro de 2024, também aumentam a sensação térmica para a população, parecendo estar ainda mais calor, explica a pesquisadora Sonaira Silva.
“O clima fica ainda mais quente, mais abafado, por conta dessa retenção de calor que o material particulado causa na superfície da atmosfera”, explicou.
O material particulado fino, resultado das queimadas e da poluição, tem um impacto direto no sistema respiratório e cardiovascular, podendo agravar condições como asma, bronquite e até problemas cardíacos.
“Primeiramente, a gente se sente muito mal, porque os olhos ardem. O cheiro é muito forte, causa irritação e desconforto. Porque todo o processo muda, sua visibilidade muda, você não sabe muito bem como reagir ou como se proteger.” destaca a pesquisadora.
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Esta reportagem é uma parceria com o Tapajós de Fato e faz parte da Rede Cidadã InfoAmazonia, iniciativa para criar e distribuir conteúdos socioambientais da Amazônia. Foi produzida na Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com apoio do Instituto Serrapilheir
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