quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Meninas quilombolas rompem barreiras e ingressam no ensino superior: “A universidade também é nosso lugar”


No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, jovens quilombolas celebram aprovações e reafirmam que a produção de conhecimento também nasce dos territórios. 

Dia 11 de fevereiro, Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), por meio do seu Coletivo Nacional de Educação, celebra conquistas que nascem do sonho, da resistência e da luta coletiva do povo quilombola. Jovens que participaram da Escola Nacional de Formação de Meninas Quilombolas e do Projeto Dandaras e Carolinas estão ingressando nas universidades brasileiras. Os projetos feitos para meninas quilombolas, com apoio do Fundo Malala, encorajam meninas a acreditarem no próprio potencial, fortalecerem suas identidades, ampliarem seus horizontes e ocuparem espaços historicamente negados ao nosso povo.

Foi assim com Juliany Carla da Silva, 18 anos. Ela é da comunidade quilombola de Trigueiros, distrito de Vicência (PE) e foi aprovada em Pedagogia por meio do Enem na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Para ela, a conquista tem dimensão histórica. “Um sonho conquistado, principalmente em uma universidade Federal com tanta concorrência e com apenas uma vaga para quilombola. Isso é a realização de um sonho.”

Juliany, que participou de várias atividades da Escola Nacional, disse que o projeto foi determinante em sua caminhada. “Me ajudou com bastante informação. Eu não tinha conhecimento suficiente e a Escola Nacional de Formação me trouxe bastante conhecimento e sabedoria.”

A jovem deixa um recado para outras meninas que também sonham em fazer uma graduação. “A universidade também é nosso lugar. Não deixem ninguém apagar seus sonhos. A gente carrega força, história e resistência. Quando uma chega, muitas chegam junto. Vocês podem, vocês merecem e vocês são capazes”, afirmou Juliany Carla.

No Paraná, Kailane Boeze da Silva Moreira, 18 anos, da Comunidade Quilombola Maria Adelaide da Trindade Batista, foi aprovada em Medicina duas vezes. Sua fala é um manifesto.

“Conquistar uma vaga em Medicina, como uma jovem quilombola, representa muito mais do que uma vitória pessoal. É a realização de um sonho que carrega a história e a luta do nosso povo por acesso a direitos que nos foram negados durante muito tempo. Para mim, é uma vitória coletiva.”

Kailane destaca o papel fundamental do Projeto Dandaras e Carolinas. “O projeto me fortaleceu enquanto mulher quilombola, me deu mais segurança para ocupar espaços e reforçou a importância da educação como ferramenta de transformação social.”

Sobre o futuro, ela afirma: “Pretendo usar a Medicina como ferramenta de cuidado, escuta e transformação social. A Medicina de Família e Comunidade me encanta, porque pode contribuir diretamente para a melhoria da saúde do povo quilombola.”

Sua mãe, Auriane Boeze da Silva Moreira, traduz o sentimento do quilombo. “Essa aprovação representa uma vitória muito grande, não só para nossa família, mas para todo o quilombo. É um símbolo de esperança, de resistência e de que nossos jovens podem ocupar lugares que antes pareciam distantes.”

Também no Paraná, Flavia Vitória Barbosa Batista, 17 anos, da comunidade quilombola do Feixo (Lapa), foi aprovada em Direito. Para ela, conquistar uma vaga na universidade, sendo uma jovem quilombola, significa romper barreiras históricas e ocupar um espaço que por muito tempo foi negado.

“É a realização de um sonho que não é só meu, mas da minha família e dos meus ancestrais.”

Ela reconhece a importância da formação política e identitária recebida. “A Escola Nacional me ajudou a acreditar no meu potencial e a entender que a minha história tem valor. Foi um espaço de aprendizado, acolhimento e construção de identidade.”

A jovem deseja usar os conhecimentos da graduação para ajudar a comunidade. “Quero usar o Direito para defender os direitos da minha comunidade e do povo quilombola, principalmente no acesso à educação, à saúde e à dignidade.”

Do Quilombo de Lagoa Fea, em Campos dos Goytacazes (RJ), Myllena Cruz Ricardo, 18 anos, foi aprovada em Tecnólogo em Telecomunicações. Para ela, estar na universidade é mais do que um projeto individual. “Conquistar uma vaga na universidade significa muito mais do que uma realização individual. É um ato de resistência e pertencimento. Finalmente estamos quebrando a barreira da desigualdade.”

A jovem reforça que a Escola Nacional fortaleceu sua identidade. “O projeto contribuiu para o fortalecimento da minha identidade. Ajudou a ampliar meus conhecimentos. Chegar até aqui é resultado desse apoio e do estímulo constante para acreditar que sonhar é realizar, é possível.”

Myllena já sabe como quer usar o conhecimento que vai adquirir. “Pretendo usar minha graduação em Tecnólogo em Telecomunicações como uma ferramenta de desenvolvimento e fortalecimento do povo quilombola”.

“A tecnologia, quando chega de forma justa aos territórios, pode transformar realidades.”

E reforça às outras meninas: “A universidade também é um lugar que nos pertence. Vocês carregam a força da ancestralidade. Quando vocês chegam à universidade, abrem portas para muitas outras que virão depois.”

A paraense Rhuanny Batista Albernas, 20 anos, da comunidade São Judas Tadeu, em Bujaru, conquistou vaga em Educação Física por meio de Processo Seletivo Específico para Quilombolas. “A minha aprovação é uma vitória. Uma grande conquista alcançar um lugar que foi sonhado há tanto tempo.”

Ela lembra que, na redação da prova, citou lideranças quilombolas e falou da luta coletiva pelo acesso às universidades. Rhuanny diz que depois de formada quer voltar para contribuir com sua comunidade. “Espero futuramente ajudar minha escola e minha comunidade com meus conhecimentos e poder transformar o ensino da Educação Física.”

Fortalecer meninas quilombolas é fortalecer a ciência brasileira

A CONAQ, por meio do seu Coletivo Nacional de Educação, celebra cada aprovação como uma conquista coletiva do povo quilombola. Cada jovem que ingressa na universidade reafirma que a ciência brasileira não pode continuar sendo produzida sem os territórios quilombolas, sem nossas experiências, sem nossos saberes ancestrais.

Projetos como a Escola Nacional de Formação de Meninas Quilombolas e o Dandaras e Carolinas não são apenas iniciativas educacionais, mas também espaços de formação política, fortalecimento da identidade, incentivo à permanência e construção de consciência crítica. Eles demonstram, na prática, a importância de políticas e ações específicas para meninas quilombolas, que enfrentam desigualdades de raça, gênero e território.

Neste 11 de fevereiro, reafirmamos: meninas quilombolas pertencem aos espaços da ciência, das universidades e da produção de conhecimento. Pertencem aos laboratórios, às salas de aula, aos centros de pesquisa, às tecnologias, às políticas públicas e, futuramente, aos lugares de tomada de decisão

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